Trump, o herói vingador que sabe mais
Na estrutura lógica das teorias da conspiração, há um lugar reservado ao Herói. A amizade de Trump com Epstein foi traduzida como estratagema de infiltração. Trump cartografaria a organização da elite pedófila, a fim de aplicar-lhe o golpe letal.
A morte de Epstein, seguida pelos lockdowns da pandemia, assinalou o ápice da imbricação do QAnon com o Maga. Trump não aderiu à teoria conspiratória, mas, habilmente, ofereceu estímulos aos crentes. A invasão do Capitólio, em janeiro de 2021, contou com a participação de soldados rasos do QAnon persuadidos de que, finalmente, chegara o momento da redenção.
Na campanha de 2024, Trump apelou diretamente à narrativa da conspiração. Ele e seu vice, JD Vance, acusaram os democratas pelo sigilo judicial imposto aos arquivos do caso Epstein, prometendo divulgá-los por completo. Hoje, diante da violação da promessa, são os democratas que exigem a publicidade dos documentos, disseminando a suspeita de cumplicidade do presidente com os crimes do financista. A esperança é apropriar-se da lógica conspiratória, voltando-a contra Trump.
A manobra dá resultados. No Maga, alguns acusam o presidente de aliar-se ao “Estado profundo”, enquanto outros desesperam-se com sua aparente impotência ante a poderosa elite global. Acossado, Trump alega, variadamente, que os arquivos nada contêm ou que foram falsificados por um conluio entre Obama, Hillary Clinton e Biden.
Xeque-mate? Suspeito que não. Na arquitetura mental das narrativas conspiratórias, a teoria ajusta-se constantemente às circunstâncias, acomodando sucessivas frustrações. Ao final, o Herói sempre escapa ileso, pois sabe mais: conhece o que não somos capazes de conjecturar. Ele acalenta um plano sigiloso, de longo curso, que trará a redenção. Se não age agora, tem motivos tão perfeitos quanto insondáveis.
A insistência no tema de Epstein revela, paradoxalmente, a crise da oposição nos Estados Unidos. O presidente perde popularidade devido à inflação, à guerra tarifária, à truculência contra imigrantes, aos insucessos externos. Mas, sem rumo desde a falência catastrófica de seus discursos identitários, os democratas desviam o combate à arena conspiratória, que pertence a Trump. Não é por aí.

