Antidemocráticos são os outros
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Em seus Diários da Presidência, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso descreveu, com indignação, os golpes abaixo da linha de cintura desferidos ao seu governo pela oposição, então liderada por Lula da Silva e o PT. Eram tempos em que os morubixabas petistas e seu exército de militantes se apresentavam como detentores exclusivos da virtude pública, como ainda hoje o fazem, e se mancomunavam com procuradores para vazar investigações em curso, transformar meros indícios em crime, prejulgar e tentar desestabilizar a gestão tucana. Um dia, escreveu FHC, Lula e o PT haveriam de provar do veneno do denuncismo que fabricavam. Anos depois, a Lava Jato confirmaria o prognóstico sombrio do ex-presidente, transformando antigos algozes em vítimas.
Esse paradoxo ilustra uma doença crônica de que padecem as principais forças políticas e partidárias do País, especialmente aquelas que, desde 2018, realizam um duelo asfixiante para conquistar votos à custa da destruição do adversário. O lulopetismo e o bolsonarismo vêm demonstrando que, quando a moderação é atributo escasso e lideranças e partidos se desacostumam a raciocinar com bom senso, o efeito imediato é passar a enxergar o Brasil e os brasileiros como mera extensão de seus interesses e preferências. As consequências são perturbadoras e conhecidas: a polarização violenta, a conversão de adversários em inimigos a eliminar, o populismo desavergonhado e o contínuo desapego à realidade.
Como os dois principais líderes do período, Lula e Jair Bolsonaro, cada um a seu modo, jamais tiveram real compromisso com a democracia – que pressupõe respeito a quem tem opinião divergente, para que seja possível o consenso –, e também nunca reconheceram a legitimidade de nenhum governo que não fosse o seu e de seus títeres. Não à toa, ambos não só cresceram fuzilando ideias e lideranças adversárias, como, no governo ou na oposição, apresentaram-se como vítimas de um complô antidemocrático e antipopular. Para o lulopetismo, a origem de tal complô sempre esteve nas “elites”. Para o bolsonarismo, no PT e no Supremo Tribunal Federal. Para ambos, na imprensa.
Num país em que a Constituição consagra a liberdade política e o pluripartidarismo, esses radicalismos mútuos resultam num mal ainda maior: com irresponsabilidade e espírito autoritário, os dois líderes e seus devotos têm dificuldade em aceitar a democracia quando sofrem reveses – seja na forma do voto na urna, seja na forma de julgamento pela Justiça.
Um estudo recente da Universidade Federal do Paraná, com entrevistas feitas pelo Ipsos-Ipec, mostrou que essa cultura se espalha também pelos seus eleitores. Segundo a pesquisa, a maioria dos brasileiros diz estar disposta a aceitar que regras democráticas sejam flexibilizadas de acordo com suas preferências políticas e partidárias e qual grupo está no poder em determinado momento. Mais de 60% dos eleitores de Lula e Bolsonaro no primeiro turno (portanto, mais convictos) disseram concordar, total ou parcialmente, que o presidente deve ignorar o Congresso Nacional “se ele atrapalhar o trabalho do governo” e também “decisões judiciais consideradas politicamente tendenciosas”.
Essa constatação se repete dos dois lados (com inclinação ainda maior entre os eleitores de Lula), mostrando que o apoio a princípios democráticos pode ter menos a ver com defesa de fato da democracia e muito mais com o que pesquisadores chamam de “autoritarismo situacional”. É como se nos deparássemos com uma espécie de apoio condicional à democracia, em que há uma disposição de parte do eleitorado a relativizar as regras do jogo democrático quando elas ameaçam suas preferências. O Brasil não está sozinho nessa tendência. Há pesquisas internacionais que confrontam interesses partidários e apoio à democracia e descrevem como líderes populistas exploram essas preocupações potencialmente conflitantes.
Em suma, a aceitação ao governo de ocasião e às regras do jogo parece condicionada ao contexto de quem a observa. Na disputa pelo monopólio da virtude ou na denúncia de quem se sente inconformado com a democracia, “nós” nos vemos como democratas. Ocorre que, aos olhos de outros, “nós” não passamos de antidemocratas a serviço de autoritários. E o vilão de ontem vira o herói de hoje.

