Ex-MST convocada por opositores é liberada pela presidência da CPI antes que governistas fizessem perguntas
Por Gabriel Sabóia — Brasília / O GLOBO
Deputados governistas pediram a anulação da sessão desta terça-feira da CPI do MST. O motivo da solicitação foi a presença de Nelcilene Reis, ex-integrante do MST que participou do encontro do colegiado. Entretanto, embora tenha sido convidada, Nelcilene se portou como testemunha e foi questionada pelos deputados oposicionistas como se estivesse em um depoimento. Quando foi a vez de os governistas fazerem perguntas à ex-ativista, ela foi liberada pela presidência da CPI — o que gerou revolta dos governistas.
Sem prestar juramento ou apresentar provas, Nelcilene fez acusações contra lideranças do MST e disse ter visto práticas análogas ao trabalho escravo e extorsão. Ela também afirmou que era tratada como "massa de manobra".
— Quem senta aqui para falar na CPI tem que estar sob juramento de falar a verdade sob pena de cometer crime ao imputar aos outros crimes que estão sendo imputados aqui. A depoente por várias vezes imputou crimes como tortura, violência, perseguição e foi seguida por outros parlamentares que, na mesma toada, fizeram isso. Quero que o senhor presidente desta CPI decida essa questão de ordem ou tornando nula essa sessão, esse depoimento, ou então que a convidada se transforme em testemunha e tudo o que ela disse aqui tem que ter a responsabilização. Precisa trazer provas — afirmou a presidente do PT e membro da CPI do MST, a deputada Gleisi Hoffmann.
O pedido dela foi negado pelo presidente da CPI, Coronel Zucco (PL-RS). Assim que terminaram as perguntas feitas por opositores, a convidada foi liberada pela presidência da CPI, o que provocou protestos de governistas.
Crise entre governo e MST
Deputados do PT ligados ao MST cobraram uma atuação mais firme do governo na CPI instalada na Câmara para investigar supostas irregularidades no movimento. O recado foi passado em reunião com o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, na manhã desta terça-feira.
Os parlamentares presentes alegaram que, embora os fatos levantados pela oposição na comissão sejam antigos, eles podem desgastar a imagem do governo federal. A avaliação entre os deputados é que a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está fazendo "corpo mole" em relação à CPI.
Eles pedem a abertura de diálogo com líderes partidários para não deixar o MST "exposto". Aliados do governo nos embates com bolsonaristas, no âmbito do colegiado, parlamentares do PSOL também se queixam de ainda não terem sido convidados para uma reunião de alinhamento estratégico com o alto escalão do governo.
Tanto o presidente, o deputado tenente-coronel Zucco (Republicanos-RS), quanto o relator, Ricardo Salles (PL-SP), estão alinhados com o bolsonarismo. De acordo com um deputado que esteve na reunião com Padilha, a comissão deve criar narrativas para atacar o PT e criminalizar o movimento.
Apesar de manter uma relação histórica com o PT e com o presidente Lula, o MST foi alvo de críticas de integrantes do governo no mês passado por ter promovido uma série de invasões pelo país. Até uma área da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em Pernambuco chegou a ser ocupada. O movimento, por sua vez, se queixava da gestão federal pela demora tanto para promover trocas nos postos de comando do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) nos estados como para a apresentação de um plano de reforma agrária.

