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Referência educacional e berço político de Ciro, Sobral vive explosão de violência

João Pedro PitomboMarlene Bergamo
SOBRAL (CE)

O relógio marca meia-noite. Em silêncio, homens e mulheres chegam a um galpão transformado em igreja no bairro Dom José, periferia de Sobral (232 km de Fortaleza). Colocam fotos no centro de uma mesa e iniciam uma oração.

São mães, pais e irmãos de jovens que se envolveram com o crime. Os cultos são na madrugada porque a igreja fica em frente a um ponto de venda de drogas e as famílias evitam circular durante o dia pelo bairro.

Berço político do presidenciável Ciro Gomes (PDT) e sua família, a cidade de Sobral vive uma escalada de violência, com aumento do número de homicídios e bairros inteiros dominados por facções criminosas.

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O cenário contrasta com os recentes avanços na educação que fizeram da cidade campeã nacional no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da rede pública, com nota 8,8 para os anos iniciais do ensino fundamental, frente a uma média nacional de 5,3. 

A situação da cidade é semelhante ao do restante do Ceará, que registrou 5.191 assassinatos em 2017 --um crescimento de 50% em relação ao ano anterior. Tornou-se assim o estado com maior número de homicídios do país, mesmo tendo a melhor educação do Nordeste.

Comandada pelo prefeito Ivo Gomes (PDT), irmão mais novo de Ciro, Sobral tem cerca de 200 mil habitantes e registrou 43 assassinatos nos cinco primeiros meses deste ano. Em 2017, foram 120 mortes violentas. A maioria das vítimas eram jovens de até 30 anos.

Bairros como Alto Novo, Sumaré e Terrenos Novos são dominadas por facções como PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho. O tráfico também tomou conta de áreas como o Residencial Nova Caiçara, conjunto do programa federal Minha Casa Minha Vida inaugurado há cerca de quatro anos.

Em visita à periferia de Sobral, a reportagem registrou muros pichados com ordens de facções do tráfico, que impõem regras como tirar o capacete ao trafegar de moto, abaixar os vidros dos carros e não usar drogas na frente de crianças.

Enquanto migram para o crime, uma geração de jovens permanece fora das escolas da cidade que ganharam destaque pelo bom desempenho no Ideb. Parte deles morre antes mesmo de chegar à vida adulta.

"Sobral se tornou a cidade dos pés juntos", resume o pastor evangélico Ronaldo Pereira, enquanto caminhava entre túmulos de jovens vítimas da violência. Com uma igreja em um dos bairros mais violentos da cidade, ele atua para convencer jovens a a sair do crime.

Um deles foi Cosme Soares da Silva, 25, que sobreviveu a dois tiros no tórax em janeiro deste ano --clímax de uma história de dez anos no tráfico de drogas. Ele abandonou a escola aos 15 anos, na sexta série do ensino fundamental, quando começou fazer pequenos furtos. "Queria dinheiro e escolhi o caminho mais fácil", disse.

O mesmo caminho foi percorrido por Francisco Odécio Moraes, 25, que deixou a escola na nona série e passou a integrar uma facção do tráfico. Só foi autorizado a deixar o crime porque se tornou evangélico. Ali, não há caminho do meio para quem se envolveu com o tráfico: ou permanece no crime ou vai para igreja.

Outros jovens não tiveram a mesma sorte de Cosme e Francisco, caso dos irmãos Edinaldo e Paulo Roberto Mesquita, ambos assassinados no ano passado.

 

O primeiro, que não chegou nem sequer a se alfabetizar, foi morto aos 24 anos. O outro tinha 30 e já era pai de dois filhos quando foi morto na porta de casa, nas proximidades de uma réplica da estátua do Cristo Redentor, cartão postal da cidade.

"Eu vivo com medo, choro todos os dias. Se ao menos tivessem levado um só e deixado o outro... mas mataram os dois", afirma Maria Silva Mesquita, 49, mãe de Paulo e Edinaldo.

Pesquisador da Universidade Federal do Ceará, o sociólogo César Barreira explica que a vulnerabilidade social dos jovens que vivem em bairros violentos minimiza o efeito que a educação pode gerar no combate à violência

"O problema da violência é multifacetado, não é só educação. A desigualdade social e a ausência de políticas urbanas em bairros da periferia têm efeito direto nos indicadores. E ainda há atuação das facções que funcionam como um impulsionador", diz Barreira, para quem a melhoria da educação terá efeito na violência só no médio e longo prazo.

Nas escolas de Sobral, jovens que estão prestes a concluir o ensino médio traçam planos para o futuro. Muitos deles pensam em deixar a cidade, caso Kladson Vasconcelos, 19, de mudança para Santa Catarina, onde um emprego de atendente de telemarketing o espera.

Outros querem pemanecer em Sobral, mas relatam serem raros os empregos qualificados. Para quem mora em bairros dominados pelo tráfico, a dificuldade é ainda maior, pois carregam o estigma da violência e acabam sendo preteridos em seleções.

A Prefeitura de Sobral tem tentado atenuar a evasão escolar por meio de um programa no qual professores e membros da sociedade buscam sensibilizar o jovem que deixa a escola. Em 2015, a taxa de evasão foi de 10,5% no ensino médio.

O governo do Ceará, comandado por Camilo Santana (PT), informa que intensificou o combate e prevenção de crimes violentos.

Para isso, afirma que contratou mais policiais, ampliou o número de viaturas e armamentos e tem planejado ações de territorialização, com policiamento em em pontos estratégicos de bairros periféricos.

Depois de perder os filhos, Maria da Silva Mesquita diz sonhar com o dia em que voltará a andar tranquila por seu bairro. E deseja uma sorte diferente os dois netos que crescerão sem conviver com o pai: "Com fé em Deus, esses vão seguir no bom caminho".

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