COP30 deixa sabor de frustração
Por Editorial / O GLOBO
Sessão plenária da COP30 em Belém — Foto: Pablo PORCIUNCULA / AFP/21/11/2025
Nada mais simbólico que o incêndio na Zona Azul, área oficial da COP30, em Belém. O fogo, felizmente controlado, foi a última evidência da desorganização que prejudicou a conferência do clima desde o início — sentida nos preços extorsivos de diárias de hotel e alimentação, na qualidade sofrível do ar-condicionado (movido a diesel) ou na reprimenda oficial da ONU aos organizadores. Tudo isso poderia ser encarado como mero transtorno se a COP30 tivesse obtido sucesso em sua missão principal: gerar instrumentos capazes de conter outro fogo, o aquecimento da atmosfera que desarranja o clima na Terra. Mas também nisso ela deixou a desejar.
Era, é verdade, possível prever resultados modestos. A Cúpula dos Líderes que antecedeu a COP30 atraiu pouco mais de 30 chefes de governo e Estado, menos da metade do registrado no ano passado e um terço dos presentes na Rio-92. Entre os ausentes, Donald Trump, presidente do país que mais poluiu desde a Revolução Industrial, e Xi Jinping, líder do maior emissor de gases. Sem aval dos dois, qualquer avanço já seria relativo. Também não compareceram líderes de países como Austrália, Indonésia, Turquia, Argentina ou Japão. A COP30 passou a ser encarada como encontro de “implementação” de decisões tomadas. E, mesmo com metas pouco ambiciosas, as conquistas ficaram aquém do necessário.
Um dos objetivos era avançar no financiamento para países em desenvolvimento enfrentarem a crise climática. Em Baku, os países ricos concordaram em triplicar o apoio de US$ 100 bilhões para US$ 300 bilhões ao ano até 2035. O objetivo desta vez era mobilizar US$ 1,3 trilhão anual, patamar considerado mínimo para haver chance de êxito. No documento final, a menção ficou vaga, sem compromisso formal.
A principal lacuna é a falta de um roteiro concreto, com metas e prazos para eliminar combustíveis fósseis. Em Dubai, o texto final reconhecera a necessidade da transição, sem estabelecer prazo. Apesar do esforço brasileiro, com a volta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à negociação, o documento de Belém omitiu o tema e recebeu críticas dos cientistas. Restou apenas a promessa de retomar a discussão.
Um dos poucos avanços foi a adoção de um conjunto de indicadores para monitorar a adaptação às mudanças no clima. Outro foi o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), iniciativa brasileira que captou US$ 6,7 bilhões de governos — início promissor, mas o TFFF precisa captar US$ 25 bilhões para ser viável. Outras ideias brasileiras nas áreas de compras governamentais, cadastro rural e auditoria de ações de governos também foram incorporadas ao instrumental climático planetário.
Antes do Acordo de Paris, o mundo caminhava para chegar ao fim do século entre 3,3ºC e 3,8ºC mais quente que no período pré-industrial. Os compromissos assumidos de lá para cá baixaram a estimativa para entre 2,5ºC e 2,9ºC. Mas a realidade está longe de 2ºC, maior temperatura aceitável para evitar cenários catastróficos. Cumprir tal objetivo exige, segundo cientistas, cortar emissões fósseis pelo menos 5% ao ano desde já, para zerá-las no máximo até 2045. Com os Estados Unidos fora, a timidez nas metas de corte e a dificuldade de chegar a acordos na COP30, é difícil acreditar que seja viável. O modelo de conferências multilaterais movidas pelo consenso e o arcabouço frágil criado em Paris não têm se mostrado à altura do desafio.

