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Lula reforça politização com escolha de Pimenta para 'czar' no Rio Grande do Sul

Ranier Bragon / FOLHA DE SWP

 

A gigantesca tarefa de recuperar o Rio Grande do Sul da tragédia pela qual atualmente passa o estado envolve não só ações concretas, mas também a comunicação.

Se publicamente o discurso dos políticos é no sentido de que não há outro interesse além do de trabalhar em prol do estado, colocando as colorações políticas de lado, na prática o embate ideológico-eleitoral permanece tão ou mais forte —e a escolha por Lula do ministro extraordinário da reconstrução do estado se insere nesse contexto.

O gaúcho Paulo Pimenta, atual chefe da comunicação do governo petista, não é notabilizado por nenhuma habilidade executiva específica, mas sim por ser um fiel escudeiro político do presidente e rival acalorado do bolsonarismo e de outras forças oposicionistas.

No primeiro mandato de Lula, que começou em 2003, gostava de ser chamado de integrante da "tropa de choque" do petista na Câmara. Anos depois, durante a prisão de Lula em Curitiba, foi um dos parlamentares que mais estiveram próximos ao então ex-presidente.

Pimenta tem sido alvo frequente do bolsonarismo no Congresso pelo fato de a Polícia Federal ter sido acionada para apurar a divulgação de fake news sobre as ações realizadas no estado, algumas reproduzidas por influenciadores e políticos bolsonaristas.

No dia em que o Ministério da Justiça anunciou ter pedido à PF a abertura de investigação, áudio da reunião da sala de risco de ministros realizada horas antes mostrou Pimenta falando que era preciso "botar pra foder com os caras" que divulgam notícias falsas.

Sob a batuta de Pimenta, o governo Lula adotou como método o uso de canais oficiais do Executivo para ironizar momentos adversos de rivais políticos, como mostrou a Folha.

No Rio Grande do Sul, o ministro é adversário do governador Eduardo Leite (PSDB).

Diante do tamanho do peso federal nas ações de recuperação do Rio Grande do Sul, Pimenta ganha com a canetada do presidente da República um poder que tende a rivalizar com o do governador eleito.

Como o "ministro da reconstrução" é, de quebra, cotado para a disputa do Palácio Piratini em 2026, a sombra eleitoral naturalmente irá pairar em todas as ações que vier a tomar, tanto aos seus olhos como aos olhos dos demais atores políticos no estado.

O ex-presidenciável Aécio Neves (PSDB), do mesmo partido de Leite, já deu o tom ao dizer, em entrevista à coluna Painel, da Folha, que classificou a escolha de Pimenta como "excrescência" e uma politização do desastre.

"O presidente Lula será responsável pela politização do drama por que passam os gaúchos. Ao indicar um adversário político do governador, o presidente, na verdade, pratica uma intervenção no estado, que tem um governador eleito para tal."

Segundo relatos, o presidente chegou a ser aconselhado a escolher um nome "técnico" para evitar a politização e rusgas com Eduardo Leite.

A tônica da reunião em que falou aos 38 ministros nesta terça-feira, porém, indica que Lula está incomodado por não estar levando o que ele considera como crédito devido pelas ações tomadas.

E aí a velha culpada dessa e de várias crises, a comunicação, sobe ao topo das prioridades.

Pela terceira vez na atual tragédia, Lula desembarca novamente no Rio Grande do Sul nesta quarta-feira (15) para fazer novos anúncios, entre eles a nomeação de Pimenta.

E após um pito em sua equipe, o script deve ser diferente. Se nas duas viagens anteriores o roteiro incluiu apenas sobrevoos e encontros com autoridades, dessa vez Lula quer mais "povo", para demonstrar solidariedade pessoalmente aos atingidos pelas enchentes.

Essa preocupação, é preciso registrar, não é exclusividade do governo.

Basta acompanhar uma tarde de debates no plenário da Câmara, por exemplo, para testemunhar uma feroz oposição patrocinada por deputados bolsonaristas que, salvo exceções, nunca engrossaram o discurso sobre a necessidade nesse momento de "união de todas as forças políticas".

Nos ataques, vários recorrem a desinformação e distorção, o que é um hábito do bolsonarismo em geral.

O ineditismo e o tamanho da tragédia no Rio Grande do Sul, por maior que tenha sido, forçou uma espécie de trégua encenada na superfície da política, mas, na prática, o antagonismo segue a todo vapor.

 

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