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Quem não tem Macron caça como Ciro?

O “como” do título deste artigo é proposital, já que o dito popular tem duas versões. Em uma delas, diz-se “Quem não tem cão caça como gato”, isto é, quem não tem cachorro para encurralar a presa precisa caçar com astúcia, manha, sagacidade. E, claro, sempre com assertividade, sobretudo diante do quadro brutalmente desolador enfrentado pelo Brasil.

 

A entrevista do pré-candidato Ciro Gomes ao Roda viva teve, como ocorre com todos, altos e baixos. Antes de discutir os altos e os baixos, duas impressões: o candidato demonstrou a argúcia e a assertividade necessárias para encarar seus oponentes, sobretudo um certo inflamado populista travestido de neoconservador liberal. Assertividade é também qualidade que falta a outros candidatos e candidatas que aparecem nas pesquisas com algum grau de competitividade. Que fique claro:

neste momento de falta de lideranças, a população brasileira procura alguém de pulso firme.

Mais ainda após testemunhar a pusilanimidade de Temer perante os caminhoneiros.

Posturas à parte, Ciro teve grandes altos na entrevista. Emplacou ótimas respostas às perguntas sobre educação. Referindo-se a sua experiência no Ceará, discorreu sobre o constrangimento de adultos que não sabem ler, sobre a indignidade — suas próprias palavras — de forçar pessoas a repetir o bê-á-bá. Sublinhou que a ênfase deve ser capacitar adultos iletrados para o trabalho e concentrar os esforços de alfabetização nas crianças. Além de pragmática e realista sobre o uso dos recursos públicos, a resposta revelou empatia e sobriedade de um candidato frequentemente chamado de destemperado.

Sobre a economia, teve dois altos bem altos e dois altos mais baixos. O primeiro alto com envergadura foi a proposta para tornar o sistema tributário menos regressivo, taxando lucros e dividendos como fazem diversos países, os EUA inclusive, além de heranças e doações. O segundo foi a discussão sobre o teto dos gastos, o reconhecimento de que a Emenda Constitucional 95 está repleta de falhas fundamentais, como discuti em diversos artigos críticos publicados em 2016 no Estado de S. Paulo e em entrevista ao Roda viva concedida em outubro daquele ano. Na época, o teto era tudo, e ninguém queria ouvir críticas. Hoje, sem a peça-chave da reforma da Previdência, o teto está prestes a ruir.

Ciro falou da experiência do Ceará. Curiosamente, a experiência do Ceará com limites para a despesa pública é muito parecida com a do Peru entre 2000 e 2013. Na época, para reconquistar a credibilidade da política fiscal, o Peru adotou regra para o crescimento dos gastos, porém, ao contrário do Brasil, não a enrijeceu excessivamente, congelando-a por 20 anos, com revisões a cada década. O Peru introduziu cláusulas de escape para refletir o ciclo econômico — períodos de crescimento permitiam afrouxamento dos limites —, além de excluir o investimento público e os gastos sociais, sobretudo com saúde e educação. Funcionou. Como documenta o FMI, são vários os países emergentes que adotam, simultaneamente, tetos de gastos como o do Peru e limites para a dívida pública, como defende Ciro. O problema do limite para a dívida é não constranger a política monetária, sobretudo em país onde a despesa financeira chega a 6% do PIB. A questão tem de ser pensada com mais cuidado, configurando um dos altos-baixos mencionados anteriormente. O outro alto-baixo foi a discussão vaga sobre a atuação do Banco Central e o possível uso excessivo de operações compromissadas. Operações compromissadas são necessárias para a gestão de liquidez, mas usadas em excesso podem privilegiar parte do setor financeiro. As nuances são tema para outro artigo.

Vamos aos baixos: a menção confusa sobre o déficit da Previdência, que está em R$ 268 bilhões, não em apenas R$ 25 bilhões; a insistência em não condenar a Venezuela pelas práticas autoritárias e antidemocráticas do regime de Maduro; os diversos ataques à Petrobras e a seu dirigente, que pegou a empresa em estado de calamidade e hoje faz o melhor que pode para reerguê-la; referir-se aos EUA como imperialista para acenar à esquerda retrógrada.

O candidato não precisa de nenhum desses artifícios para se sobressair na cacofonia que caracteriza parte da esquerda e a esquisita direita que nasce querendo ser americana, quando não trumpista. Se conseguir superar essas tentações caçando como deve, poderá conquistar os votos de todos os que não veem no triste rol de candidatos a saída do atoleiro. 

MONICA DE BOLLE
31/05/2018 - 18h41 - Atualizado 31/05/2018 18h41 / ÉPOCA

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