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A certeza da incerteza

Os sintomas da crise na democracia representativa multiplicam-se com a velocidade de um clique. Não dizem respeito somente ao Brasil, mas são reflexo de mudanças tecnológicas e sociais de características globais.

A política sendo dominada por partidos a serviço deles mesmos e não dos cidadãos, eleições controladas por dinheiro, a supremacia da imagem projetada nos meios de comunicação em detrimento de propostas construídas na arena pública e a corrupção sistêmica de governos, empresas e instituições seculares são preocupações em todos os continentes.

A novidade está na possibilidade que a comunicação em rede oferece para incrementar a participação cidadã, tornando-a mais efetiva do que a convocação a cada quatro anos para o exercício de um voto midiatizado.

Os canais autônomos de debate, organização e manifestação — on-line e nas ruas — ampliam-se e podem revitalizar a democracia mediante a crítica aos partidos burocratizados e aos políticos e à política corrupta.

Nesse cenário em mudança, os políticos reagem com apelos a estratégias de marketing que os aproximam cada vez mais do mercado publicitário e os distanciam do cotidiano das pessoas. O grande trunfo do marketing é a capacidade de reconfigurar — para usar o termo preferido dos especialistas — a realidade. Na era da informação instantânea, múltipla e fragmentada, eleitores são tratados como espectadores, em vez de participantes ativos.

ÉPOCA publica nesta edição perfil detalhado do estrategista a quem cabe defender os postulados do governo Michel Temer. A tarefa tem se revelado inglória e ineficiente, mas expõe muito dos personagens em torno do presidente da República e da forma como ele toma decisões erráticas.

A disputa pelo Palácio do Planalto ainda permanece em zona sombreada. É difícil prever como o pleito se desenrolará e terminará daqui a cinco meses, prazo curto no calendário, mas sujeito a surpresas políticas.

A desistência do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa da corrida sucessória aplacou os ânimos daqueles que o viam como sangue novo em corpo anêmico. “Os políticos criaram um sistema de maneira a beneficiar a eles mesmos. Não há válvula de escape. O cidadão vai ser constantemente refém, não tem como mudá-lo. Esse sistema contém mecanismos de bloqueio que servem para cercear as escolhas”, justificou-se Barbosa, de modo amargo.

Como mostra artigo de brasilianista nesta edição, o quadro político brasileiro nunca foi para amadores, mas está cada vez mais confuso. O articulista estrangeiro tem tido dificuldade para mapear as idas e vindas dos personagens principais, entender razões pessoais e partidárias na lenta renovação de lideranças e responder quais caminhos o país pretende trilhar.

A única certeza tem sido a ideia de que a prevalência da incerteza rondará o pleito presidencial de 2018 até a abertura das urnas. época

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