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Estelionatos eleitorais em série permeiam desânimo na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro

Por Malu Gaspar / O GLOBO

 

A noção de estelionato eleitoral está arraigada na política brasileira. Seu exemplar mais bem-acabado foi o confisco das poupanças por Fernando Collor de Mello, que se elegeu prometendo abertura da economia e acabou tomando o dinheiro da população. Famílias foram à falência, e muitas empresas quebraram em nome de uma reorganização da economia que não veio. Outra promessa não cumprida foi o combate implacável à corrupção. O primeiro presidente eleito diretamente depois da ditadura sofreu impeachment justamente como resultado de um enorme escândalo. Praticamente todos os presidentes que vieram depois traíram suas promessas em maior ou menor grau.

 

Nesta campanha em clima de vale-tudo, o estelionato parece institucionalizado. Lula e Flávio Bolsonaro vêm prometendo o possível e o impossível, e, ainda assim, com exceção do jornalismo profissional e de alguns poucos grupos organizados, ninguém mais se incomoda em conferir quais planos ficam de pé e quais são só pastel de vento.

 

Começando por Lula, que parece ter acordado de um sono profundo e se dado conta de que o Brasil tem 17,6 milhões de microempreendedores individuais formando o grosso do eleitorado das periferias de centros urbanos — gente que teria tudo para ser eleitor da esquerda, mas há pelo menos uma década vem se afastando do lulismo.

 

Não que o presidente não soubesse que esse seria seu ponto fraco. Tanto sabia que, em outubro de 2025, pôs Guilherme Boulos na Secretaria-Geral do Palácio do Planalto com a missão específica de conquistar esse ramo do eleitorado.

Não adiantou, e agora, a 12 dias do segundo turno, Lula divulgou um cardápio de medidas só para esses empreendedores, os MEIs — do perdão de dívidas de impostos à simples distribuição de dinheiro (R$ 5 mil por CNPJ), além do aumento do teto de faturamento para que eles continuem na faixa de tributação especial.

 

Somando tudo, é um presente de R$ 24 bilhões. Só há um detalhe: nada disso é garantido. O tal Pix MEI só cairá na conta em 2027 se Lula ganhar, e os outros dois programas dependem da aprovação do Congresso. É uma promessa de campanha tão válida quanto a picanha barata ou a frente ampla de 2022.

 

Do outro lado está Flávio Bolsonaro, que acaba de se declarar favorável ao fim da escala 6x1 “porque a maioria dos trabalhadores brasileiros quer”, mas nos bastidores já sinalizou que, uma vez eleito, botará carga num projeto de seu partido parado no Senado Federal que flexibiliza a escala de trabalho estabelecendo negociação direta entre patrão e empregado.

 

Seu plano de governo, que promete um “tesouraço” para reduzir os gastos e a dívida pública, também não fecha. Além de não apontar onde haverá cortes, ele diz que manterá o reajuste do salário mínimo, os benefícios sociais e os pisos constitucionais obrigatórios para as despesas de saúde e educação — tudo sem aumentar impostos. É uma combinação considerada impossível pelos especialistas em contas públicas. Alguma dessas promessas Flávio descumprirá.

Todos esses temas afetam a vida do eleitor, mas, com a campanha dominada pelo escandaloso envolvimento do Supremo Tribunal Federal (STF) com Daniel Vorcaro e uma guerra sangrenta de fake news, foram passando batido. Só agora, com as pesquisas mostrando empate técnico e os dois lados calculando milimetricamente seus passos para não cometer um erro fatal, teremos algum debate (supostamente) de ideias e propostas.

 

Pelo que se ouve nas campanhas, o maior medo de cada um não é ser confrontado com promessas impossíveis de cumprir ou claramente fajutas e ser obrigado a explicá-las. A preocupação, nos treinos dos marqueteiros, é encontrar formas de desequilibrar o oponente com provocações que o façam parecer fraco, ladrão, confuso ou velho demais (no caso de Lula), medroso ou despreparado demais (no caso de Flávio).

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