Turbulências agravam revolta de parte da população com o STF e deixam a Corte no centro do resultado eleitoral
A malfadada sessão de 15 de setembro e, nas últimas semanas, a guerra de decisões monocráticas por parte de integrantes do Supremo, além de sua disputa aberta com outro tribunal superior, o TSE, pela definição de lances cruciais da campanha, são vistos como fatores a agravar a revolta de uma parcela da população que, viu-se, era bem maior que aquela que os governistas estimavam.
Lula tentou se dissociar da crise do tribunal, sobretudo depois que ficou evidente que Moraes escondera o grau e a natureza de sua relação com Daniel Vorcaro.
Num dos últimos atos de campanha, a entrevista camarada que concedeu ao Flow Podcast, voltou a defender uma reforma do Judiciário e a repetir o lugar-comum segundo o qual ninguém pode se tornar ministro do STF para enriquecer. Ainda assim, achou-se no dever de enaltecer o papel que Moraes desempenhou em defesa da democracia.
Pois bem: o arrastão bolsonarista, uma realidade sob todos os ângulos pelos quais se analise o primeiro turno, mostra que a maioria da população não reconhece esse papel e não vê na tentativa de golpe consignada no decorrer do governo de Jair Bolsonaro e na posterior intentona de 8 de janeiro de 2023 razões para rechaçar um grupo político. Antes mesmo de os eleitos de agora colocarem em marcha propostas de anistia ou indulto que certamente virão, o eleitorado parece ter anistiado os golpistas na urna eletrônica — contra a qual, aliás, eles sempre investiram.
Não é simples para Lula rifar Moraes e adotar um cordão sanitário em relação ao STF. Mas ajudaria sua inglória missão de virar a eleição num mapa do Brasil quase todo tingido de azul que suas excelências compreendessem o tamanho da insatisfação do país com sua atuação e parassem de usar a caneta sem nenhum pudor para tentar mudar a direção do vento nas eleições.
O adiamento sine die da crise envolvendo Moraes e André Mendonça, as decisões (do STF, mas também do TSE) que inviabilizaram o único debate eleitoral que aconteceria no primeiro turno e a divisão mais nítida dos ministros em grupos políticos produziram no eleitor uma revolta manifestada num voto antissistema mais contundente que o de 2018, porque produziu um Congresso hostil ao Judiciário.
Se Lula quiser ter uma chance de se salvar da onda azul, precisa forçosamente separar seu destino ao dos ministros que são vistos como próximos de seu governo.
O ministro Gilmar Mendes, durante julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal — Foto: O ministro Gilmar Mendes, durante julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal

