Lula só ganha de Flávio; contra o antipetismo, perde de lavada
O primeiro turno deu uma notícia ruim e uma boa para Lula. A ruim é que o antipetismo está vivo, organizado e chegou às urnas com muito mais força do que o governo gostaria. A boa é que, no segundo turno, Lula não precisa disputar contra o antipetismo. Precisa disputar contra Flávio Bolsonaro.
Parece a mesma coisa. Não é.
Se a pergunta da eleição continuar sendo “você quer mais quatro anos de PT?”, Lula corre enorme risco de perder. O antipetismo é maior do que Flávio. Reúne desde o bolsonarista convicto até aquele eleitor que não suporta Bolsonaro, mas olha para o governo e pensa: “Chega”.
O erro de Lula foi ter demorado demais para perceber isso. Passou boa parte da campanha falando para um país que já conhecia seus argumentos. Só no final foi procurar o Brasil que acorda cedo, pega ônibus, abre a lojinha, faz bico, paga boleto e tenta descobrir por que o dinheiro continua acabando antes do mês.
Esse eleitor não está fazendo uma tese sobre democracia enquanto espera o ônibus. Está tentando organizar a própria vida. É justamente aí que Lula pode transformar o segundo turno.
A disputa precisa deixar de ser um plebiscito sobre o PT e virar comparação entre Lula e Flávio. Não entre duas biografias. Entre duas maneiras de organizar a vida das pessoas.
A escala 6x1 oferece talvez o exemplo mais didático.
Flávio se posicionou contra o fim da jornada. Lula está do outro lado. Parece uma discussão trabalhista. Para milhões de brasileiros, é muito mais.
Há anos nossas pesquisas mostram uma transformação na relação da classe C com o trabalho. Especialmente entre os jovens, salário continua fundamental, mas deixou de ser a única moeda. A briga é também por agenda. Por autonomia. Por tempo.
Quem trabalha seis dias para descansar um não precisa de economista para explicar o valor de uma folga. Sábado é aniversário do filho. Domingo é igreja, futebol, almoço com a mãe, namoro. Às vezes, é simplesmente dormir.
O tempo é a única moeda que não pode ser parcelada.
Isso não significa que Lula deva transformar a eleição num plebiscito sobre a 6x1. Flávio tem vantagens importantes, especialmente quando a conversa chega à segurança pública. Ignorar isso seria repetir um dos erros que trouxeram a esquerda até aqui.
Mas Lula precisa obrigar Flávio a sair do confortável território do antipetismo e explicar suas escolhas diante da vida concreta.
O primeiro turno mostrou que não basta dizer que Bolsonaro é pior. Nem dizer que o governo melhorou indicadores que o eleitor ainda não sentiu melhorar dentro de casa.
Agora é comparação.
Se o segundo turno for sobre o passado do PT, Lula perde terreno. Se for sobre o sobrenome Bolsonaro, talvez também não baste. A chance de Lula aparece quando a eleição deixa de perguntar quem o brasileiro rejeita e começa a perguntar como ele quer viver.
Porque antipetismo é sentimento.
Escala 6x1 é segunda-feira de manhã, e o presidente do Senado é o maior cabo eleitoral do segundo turno.

