Fracasso do Move Motos expõe limites das políticas eleitoreiras
Por Editorial / O GLOBO
Não é de surpreender o fracasso do programa do governo federal que facilita o crédito a entregadores e mototaxistas de aplicativos para compra de veículos novos. O Move Motos, uma das muitas medidas adotadas para tentar aumentar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem frustrado as expectativas. Desde o início, em meados de julho, 17,7 mil entregadores contrataram empréstimos, num valor de R$ 384 milhões, como mostrou reportagem do GLOBO. Técnicos esperavam entre 700 mil e 1,2 milhão de beneficiados.
As limitações do programa já haviam ficado claras pela baixa adesão das instituições financeiras. Além dos estatais Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, só aderiram os bancos Yamaha e Honda, ligados a fabricantes de motos, por interesse na iniciativa.
O programa é destinado a ciclistas e motociclistas cadastrados em aplicativos há pelo menos seis meses com no mínimo cem corridas, ou ciclistas, motofretistas ou mototaxistas profissionais com contratos formais há pelo menos seis meses. As condições são atraentes: juros de até 0,99% ao mês para homens e 0,91% para mulheres. O parcelamento pode ser feito em até 48 meses. Houve reserva de R$ 1,25 bilhão do Fundo Garantidor de Operações para cobrir possíveis calotes.
Apesar das condições favoráveis, os interessados encontram dificuldades que não foram vislumbradas pelo governo. Um entregador que trabalha no setor há mais de três anos tentou comprar uma moto pelo programa, mas não foi aprovado. Ele acredita que tenha sido barrado porque seu nome está negativado por dívidas não pagas. “Tentei aderir pelo gov.br, deram prazo para o requerimento e, quando fiz, não foi aceito. Parecia fácil pela propaganda”, disse. Casos como esse são uma realidade que o governo parece ignorar.
O Move Motos integra um programa maior, o Move Brasil, que também enfrenta dificuldades. No início de agosto, pouco mais de um mês depois de lançado, o financiamento de automóveis para taxistas e motoristas de aplicativos não havia deslanchado. Dos R$ 30 bilhões reservados, a demanda atingira R$ 2,2 bilhões, ou 7,3% do total. Entre os principais empecilhos são apontados a inadimplência, o endividamento alto e a dificuldade para comprovar renda. Situações previsíveis.
Não há nada de errado em facilitar condições para que taxistas, mototaxistas, motoristas de aplicativos ou entregadores renovem seus veículos de trabalho. O problema é esses programas terem surgido não da demanda legítima das categorias, mas de objetivos puramente eleitoreiros. Políticas públicas devem ser formatadas de acordo com seus efeitos na economia e na sociedade, com base em estudos academicamente robustos — e não nos índices de popularidade, para agradar a este ou àquele público arredio.
Chega a ser irônico que o governo lance programas, e os potenciais beneficiários não possam participar porque têm dívidas que não conseguem pagar devido ao descontrole fiscal do próprio governo — maior causa dos juros altos que perpetuam o endividamento.
Entregadores em atividade em São Paulo — Foto: Edilson Dantas /Agência O Globo/29/10/2025

