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Democracia valorizada nas urnas

O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2018 | 05h00

 

Na semana passada, o instituto de pesquisa Datafolha revelou que o apreço pela democracia nunca foi tão forte no Brasil como agora. Para 69% dos eleitores brasileiros, a democracia é sempre a melhor forma de governo. Na pesquisa anterior, no mês de junho deste ano, 57% haviam apoiado incondicionalmente a democracia. Na série histórica, o menor índice ocorreu em fevereiro de 1992, quando apenas 42% dos brasileiros manifestaram apoio incondicional à democracia.

Nessa última enquete, realizada nos dias 3 e 4 de outubro, apenas 12% disseram preferir uma ditadura e 13% mostraram-se indiferentes em relação à forma de governo. Esses números nem sempre foram tão favoráveis assim para a democracia. Em setembro de 1992, por exemplo, 23% disseram que, em certas circunstâncias, seria melhor uma ditadura do que um regime democrático.

Foram muitas as reações de ceticismo ao resultado da enquete do Datafolha. O apoio à democracia parecia contradizer certas intenções de voto captadas pelas pesquisas de opinião. No entanto, o resultado das urnas mostrou que a pesquisa era coerente: consciente da sua liberdade política, o eleitor votou de acordo com suas convicções.

O que se viu no domingo passado não foi nenhuma rejeição à democracia, como alguns interpretavam as pesquisas de opinião. Não foi um voto antipolítica, como se a política estivesse fadada a uma incorrigível corrupção. Majoritariamente, foi um voto a favor da política limpa, sem conchavos, sem conluios, sem tantas práticas nefastas do passado.

O recado do eleitor foi claro. Ele não enxerga apenas a ditadura como o inimigo da democracia, como se bastasse proferir juras de amor ao voto popular para assegurar que a democracia estará preservada. O eleitor mostrou que também considera prejudicial à democracia a política suja, a corrupção, os escândalos, o aparelhamento partidário da administração.

Nesse sentido, de forma bastante ampla, o eleitor expurgou políticos envolvidos em escândalos de corrupção que há muito circulavam pela cena política brasileira. Em todas as regiões do País, velhos caciques - muitos deles figuravam em confortáveis posições nas pesquisas de opinião - tiveram pífios resultados nas urnas.

Trata-se de uma poderosa mensagem que brota das urnas. O eleitor não quer ser manipulado por declarações oficiais de apoio à democracia. Não basta, por exemplo, que o PT diga que sempre respeitou o resultado das urnas. É preciso não corromper a política com práticas como o mensalão e o petrolão.

Como manifestação direta do seu apreço pela democracia, o eleitor usou o voto para promover uma política mais limpa. Mostrou, por exemplo, que não teme votar em candidatos novos, alguns deles desconhecidos do grande público. Longe de temer eventuais riscos envolvidos numa escolha nova, o eleitor manifestou no domingo uma convicção e uma determinação como há muito não se via no País.

De certa forma, pode-se dizer que, no domingo passado, o eleitor decretou sua liberdade em relação aos partidos políticos, às coligações, aos cânones da propaganda política. Tudo isso teve um peso muito relativo nas urnas. Os critérios do eleitor foram outros - acima de tudo, tratava-se de assegurar uma política limpa.

Agora, mais do que nunca, é preciso respeitar a voz das urnas. O eleitorado não disse que deseja uma mudança de regime ou que almeja revogar os direitos e as liberdades fundamentais previstos na Constituição. O que o eleitor pede, com muita ênfase, são novas práticas políticas. É assim que se deve entender, por exemplo, o antipetismo, que reuniu tantas forças e tantas energias.

Depois de tantos escândalos de corrupção - alguns casos já devidamente processados e julgados pela Justiça -, aliados à crise econômica, o eleitor foi às urnas decidido a impedir que os políticos de sempre retomassem seus postos, como se nada houvesse ocorrido. Essa firme rejeição à política corrupta é um componente da democracia que sempre merece ser respeitado e valorizado.

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