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Em busca de feito raro, Haddad depende dos pêndulos da classe média

Mauro PaulinoAlessandro Janoni
SÃO PAULO

primeira pesquisa referente ao segundo turno da eleição presidencial divulgada nesta quarta-feira (10) pelo Datafolha reflete a redistribuição inicial do eleitorado depois do pleito do último domingo (7). Jair Bolsonaro mantém, em votos válidos, distância equivalente à que obteve no primeiro turno para Fernando Haddad (PT).

A vantagem de 16 pontos percentuais, com 58% dos votos válidos logo no primeiro levantamento, ganha especial valor simbólico quando se observam os históricos de eleições anteriores.

O único candidato a conseguir uma taxa mais elevada do que a do capitão reformado já no primeiro estudo foi Lula em sua vitória de 2002 —o petista começou a disputa com 64% dos votos válidos contra 36% de José Serra (PSDB) e foi eleito com 61%.

Em todas as outras, a diferença entre o primeiro levantamento e o resultado oficial foi de até três pontos percentuais, o que sugere pouco espaço para grandes variações ao longo desta fase do processo.

A única exceção foi a reeleição de Lula em 2006. O ex-presidente começou o segundo turno com 54% dos votos válidos e foi eleito com 61%. Na ocasião, seu adversário, Geraldo Alckmin (PSDB), acabou com apoio menor do que teve no primeiro turno e com sete pontos a menos do que tinha começado a fase final da disputa.

É nesse tipo de movimento raro que se fixam as esperanças de campanha de Fernando Haddad. Algum fato de repercussão, pontos nevrálgicos nos programas de governo, ruído na comunicação ou até mau desempenho ou ausência em debates pode ser fatal tanto para um lado quanto para o outro, principalmente em cenário tão passional.

No segundo turno, nos votos válidos, quando um candidato cai, o outro automaticamente cresce. 

Uma variação de sete pontos percentuais, como a de 2006, por exemplo, se pró-PT, equilibraria a disputa entre Bolsonaro e Haddad, em patamares equivalentes ao confronto entre Dilma Rosseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) em 2014 —o tucano largou na frente com 51% dos válidos, mas a petista virou o jogo e venceu com 52%.

Virada com distâncias mais expressivas entre os dois candidatos, em eleitorado também heterogêneo e disperso geograficamente, se deu, por exemplo, na eleição pelo Governo de São Paulo em 1998.

Paulo Maluf (PPB) chegou a 54% dos válidos contra Mario Covas (PSDB), no início da campanha de segundo turno, mas, a 10 dias do pleito, foi ultrapassado pelo tucano, que venceu com 55%.

O desafio de Haddad é reconquistar segmentos da classe média, principalmente no Sudeste, que se mostram pendulares, especialmente os setores intermediários que cresceram com o lulismo. 

As classes mais altas configuram causa perdida para o petista —Bolsonaro alcança quase 70% dos votos válidos nesses estratos.

Na classe média intermediária, que corresponde a mais de um terço do eleitorado, o capitão reformado chega a 59%, contra 41% do petista.

Em simulações do segundo turno feitas desde o começo da campanha, essa tendência era o inverso —Haddad chegou a ter pequena vantagem nesse estrato, revertida após uma reação conservadora e evangélica na semana anterior ao pleito.

Entre os excluídos, com baixa escolaridade e renda, o petista lidera com 62%. Sua vantagem no estrato só não é maior porque a maioria dos homens mais pobres tende a Bolsonaro —o segmento feminino de menor renda é onde a resistência ao capitão reformado continua majoritária e expressiva.

No plano político, com base nos dados, apesar da maioria dos eleitores do terceiro colocado, Ciro Gomes (PDT), já ter migrado para Fernando Haddad, a declaração de apoio do pedetista pode ainda render alguns pontos ao petista.

Isso porque 36% dos que valorizam Ciro como cabo eleitoral ainda não escolhem o substituto de Lula —estão entre Bolsonaro, brancos e nulos. Considerando-se apenas os que estão sem candidato nesse estrato, a oficialização do apoio poderia acrescentar mais três pontos, em curto espaço de tempo, às intenções de voto do petista.

Sobre o futuro da eleição, considerando-se o percentual elevado de eleitores que admitem ter definido o voto na semana do primeiro turno, melhor não arriscar palpites ou projetar resultados —a disputa confirma a cada lance ser a mais dinâmica da história.

Paulino é diretor-geral do Datafolha e Janoni, diretor de pesquisas do instituto / folha de sp

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