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Pesquisas contam a história eleitoral, e comprovam movimentos de última hora

Mauro PaulinoAlessandro Janoni
SÃO PAULO

Segundo turno para presidente da República entre os primeiros colocados, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Em São Paulo, a curva ascendente de Márcio França (PSB) e a indefinição de quem iria para a etapa final com João Doria (PSDB). No Rio de janeiro, a disparada de Witzel (PSC) nos últimos dias, comprometendo a viabilidade de Romário (Pode) e lançando dúvidas sobre o adversário de Paes (DEM).

Em Minas Gerais, o crescimento expressivo de Zema (Novo) na reta final, alcançando o governador Pimentel (PT) e ameaçando sua reeleição, apontada, por outro lado, em Pernambuco, com Paulo Câmara (PSB). No Distrito Federal, o desempenho de Ibaneis Rocha (MDB), a desidratação de Eliana Pedrosa (Pros) e a disputa da candidata com Rollemberg (PSB), entre outros, pela segunda vaga.

São todos resultados não só da eleição como também das pesquisas de véspera do Datafolha, documentadas nas páginas desta Folha no domingo e no Jornal Nacional da TV Globo ainda na noite de sábado. Além dessas tendências, os relatórios do Datafolha também alertavam para as elevadas taxas de indecisos para a eleição no senado e o quanto elas seriam determinantes para eventuais mudanças no dia do pleito.

Da mesma forma, em suas análises, o instituto enfatizou a taxa recorde de volatilidade do voto, com baixa fidelização, especialmente entre os eleitores de Marina (Rede) e Alckmin (PSDB). Nos últimos artigos, descreveu potenciais de migração para os candidatos que polarizavam a disputa e demonstravam maior cristalização de seus respectivos eleitorados.

As candidaturas de Bolsonaro e Haddad se retroalimentavam, num processo contínuo de ação e reação tanto de seus detratores quanto de seus entusiastas.

Esta é a eleição mais imprevisível pós-redemocratização, catalisada ainda pelas redes sociais de mensagens instantâneas, que influenciam a opinião pública e são difíceis de serem fiscalizadas. Mas não é só por causa dessa gama de vetores com forte poder de influência sobre o eleitorado que os percentuais na pesquisa de véspera não podem ser comparados com os da urna. É porque o procedimento é tecnicamente incorreto mesmo.

A única pesquisa que pode ser comparada com o resultado final é a da boca de urna, realizada depois da votação. Não é uma pesquisa de intenção de voto, questionando o eleitor sobre algo que ainda vai fazer. Entre a intenção e a concretização da escolha, como se viu, variáveis agem sobre a escolha. A boca de urna é um levantamento do que ele já fez, o candidato em quem ele acabou de votar, retrata o fenômeno em si, no dia em que ele de fato acontece.

Por isso os números da pesquisa divulgada pelo Ibope ao fim da votação do último domingo ficaram tão próximos aos apurados nas urnas, confirmando boa parte das tendências e curvas que ambos os institutos captaram na véspera. 

O Datafolha deixou de fazer pesquisas de boca de urna desde que a apuração eletrônica passou a dar rapidamente os resultados oficias, e procura concentrar esforços no monitoramento do processo eleitoral, preocupando-se em fornecer elementos para sua compreensão.

Foi o que aconteceu mais uma vez este ano. Dos reflexos de indefinição e inelegibilidade da candidatura do ex-presidente Lula, ao clima de protesto e indignação do eleitorado em relação aos políticos e instituições, ao atentado contra Jair Bolsonaro e a oficialização de Fernando Haddad como substituto petista, todas as variáveis foram acompanhadas não só para o total da população como para segmentos que se mostraram estratégicos na eleição –as mulheres mais pobres, a região Nordeste, a classe média brasileira e o contingente evangélico.

Nos últimos pleitos, o eleitor tem deixado a definição do voto cada vez mais para o dia da eleição.  Numa disputa tão atípica como a deste ano, com o acirramento ideológico, em que a peleja presidencial ofuscou a disputa dos outros cargos (um exemplo são os votos brancos e nulos para governadores), tão importante quanto apenas mostrar a “corrida de cavalos”, é compreendê-la para acima de tudo contar sua história. 

 

Mauro Paulino é diretor-geral e Alessandro Janoni, diretor de Pesquisas do Datafolha

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