‘Mil dias de tormenta’, de Bernardo Mello Franco, traz lufada de ar a ambiente político fétido
RIO - Perto de se aposentar como colunista político, o jornalista e escritor norte-americano William Safire (1929-2009) ofereceu aos leitores um conjunto de dicas para ajudá-los a interpretar criticamente a obra de seus iguais. Elencou uma dúzia de regras para orientar a leitura de colunas políticas, em texto publicado em 24 de janeiro de 2005, resumido poucos dias depois por Elio Gaspari na imprensa brasileira. A mais valiosa das dicas dizia que o leitor deveria se questionar sempre sobre qual fora a fonte do texto e a quem ele poderia beneficiar. Essa seria a baliza mais segura para sopesar os argumentos apresentados.
Safire esmiuçou — com ironia elegante — as estratégias, os truques e os atalhos que colunistas políticos escolhem para preencher o espaço que ocupam no latifúndio jornalístico. Cuidado com as citações, com as manifestações de erudição deslocada, com a admissão de pequenos erros como escada para solidificar opiniões sem embasamento, enumerou. Reproduzia um veterano que assegurava que nunca comprometera sua integridade jornalística — exceto por uma anedota reveladora. Alertava que colunistas nunca colocam o mais importante no início do texto. A azeitona está sempre escondida no meio da empada. Daí sugeria que o leitor começasse a leitura de colunas a partir da metade do texto. Desculpava-se, ao fim, por só revelar o mister do ofício depois de se aposentar.

Aos 34 anos, Bernardo Mello Franco é um dos mais jovens e talentosos colunistas políticos brasileiros. Dispensa a cartola e o pincenê que caricaturam os estilos do gênero. Prefere frases curtas, exposições didáticas e ideias claras. Jornalista há quase 15 anos, começou sua carreira como colunista político há apenas quatro na “Folha de S.Paulo”. Transferiu-se este ano para O GLOBO, no qual burilou o estilo que o caracteriza. Escreve cinco vezes por semana, com textos dispostos em seis, sete ou oito parágrafos, no máximo. Busca nos bastidores da política a explicação, o segredo ou a boutade que o noticiário em geral sonegou ao leitor.
No recém-lançado “Mil dias de tormenta — A crise que derrubou Dilma e deixou Temer por um fio” (Objetiva), Mello Franco reúne colunas selecionadas sobre o período traumático recente, todas publicadas na “Folha”. É uma oportunidade para revisitar a crise em reflexão necessária sobre o modo de funcionamento do sistema político brasileiro, sem, no entanto, perder a leveza. Há valor inegável na leitura de crônicas inteligentes sobre os acontecimentos do dia, tendo sido escritas no impulso do momento, sem a vantagem da retrospectiva de que hoje dispomos.
Em uma época cruelmente partidária, esses textos são uma lufada de ar fresco num ambiente fétido. É engraçado relembrar como e quando surgiram termos como “pixuleco”, a bem-humorada e trágica tradução do tesoureiro petista João Vaccari para propina, e entender como a expressão “suruba política” tornou-se centro dos debates em uma comissão da Câmara.
Cronista atento, Mello Franco seleciona e comenta as frases mais marcantes da mal-ajambrada transição entre a presidente “impichada” Dilma Rousseff e seu antigo vice-presidente, Michel Temer. Concentra parte importante dos seus escritos em muitos dos escorregões do elenco de apoio da pesada: Eduardo Cunha, a quem se refere com frequência como correntista suíço, Carlos Marun, Rodrigo Rocha Loures e outros personagens menos abastados.
Meticuloso, o colunista só classificou como estridente o pedido de impeachment de Dilma protocolado pelos advogados Miguel Reale Jr. e Hélio Bicudo depois de contar que o documento continha 28 exclamações e abusava de frases inteiras em caixa alta — ato deseducado para os leitores. Contabilizou que a carta de rompimento escrita por Temer a Dilma tinha 883 palavras, mas nenhuma delas se referia aos graves problemas que o país atravessava. Registrou com humor que houve quem a resumisse como “mimimichel”.
Os mil dias de tormenta vão das articulações iniciais do impeachment de Dilma, passam por sua deposição e se encerram quando Temer foi mantido no cargo, mesmo tendo sido o primeiro presidente acusado de crimes no exercício da função. Mello Franco resume o episódio com primor: “Temer se sagrou vencedor, mas terá que engolir batatas murchas e amassadas. Sua base de apoio encolheu, sua impopularidade bateu recorde e seu governo ficou ainda mais fraco e desmoralizado. Mesmo assim, ele tem que festejar. É melhor continuar no palácio do que antecipar o encontro com os tribunais”.
*Plínio Fraga: editor-chefe da revista “Época” e autor da biografia “Tancredo Neves — O príncipe civil” (Objetiva) O GLOBO

