Símbolos do que não deve ser feito
Da Coluna Fábio Campos, no O POVO deste domingo (8):
Na última sexta-feira de 2016, o Governo do Ceará veio a público para dizer que o Estado não vai colocar dinheiro na obra do Acquario Ceará. Leiam as palavras textuais do governador Camilo Santana (PT): “Eu não pretendo mais investir nenhum dinheiro público com a construção do Acquario, estou procurando uma parceria com a iniciativa privada. Não dá mais pra gastar dinheiro público nessa obra”.
Algumas coisas precisam ser ditas. Para começo de conversa, o Governo não vai colocar novos recursos na obra simplesmente por que não há novos recursos disponíveis. Na verdade, o Governo já colocou no abandonado monstrengo de concreto mais do que estava previsto. De 2012 para cá, a contrapartida do Estado foi superior a 140 milhões de reais.
Todo o restante do valor para construir e equipar o Acquario viria de um empréstimo internacional do Ex-Im Bank dos Estados Unidos. Um montante de 105 milhões de dólares. A obra começou em 2012 sem que o empréstimo sequer tivesse sido aprovado. No fim das contas, toda a contrapartida pública foi investida e o empréstimo nunca saiu. Nem sairá.
A obra está parada há quase um ano. Vai continuar parada indefinidamente. Não há solução de curto prazo para o projeto de R$ 450 milhões. 75% da parte de concreto estão prontos. É um amontoado de ferro e cimento entremeados com tubulações que não servem para nada e vão ficar imprestáveis sob a chuva e o sol causticante.
O Governo acena com o caminho da privatização do projeto. Diz que encaminhará a contratação de uma consultoria que vai desenhar o modelo de venda do equipamento. Hoje, isso é conversa para boi dormir ou autoengano. Como queiram. Afinal, o resultado é o mesmo. No caso, um imenso prejuízo para o hipotecado contribuinte.
Do jeito em que se encontra, é muito improvável que apareçam entes privados interessados em tocar o negócio. Missões empresariais já se prestaram a avaliar as possibilidades. Os resultados foram desalentadores para o futuro do equipamento, que foi projetado de forma amadora, sem sequer ser antecedido por um plano de negócios. Básico.
Infelizmente, Fortaleza terá que aturar durante muito tempo um projeto faraônico e caríssimo, encravado em plena Praia de Iracema. Inacabada, sem serventia, a obra tende a ser vista como um monumento em homenagem à inversão de valores e prioridades em uma cidade que tem metade de sua população vivendo sem serviço de esgoto.
O pior é que o Acquario não está sozinho na lista de referências do que jamais deve ser feito. Vendida ao distinto público como uma forma de baratear os custos de construção de uma nova linha do metrô da Capital, a compra de quatro tuneladoras (os tatuzões) se transformou em um grande e dispendioso mico que, a preço de hoje, custaram mais de R$ 150 milhões.
Há mais de três anos expostas ao relento, sob a ação abrasiva do tempo, os equipamentos jamais foram montados e, muito menos, usados. Estão sem manutenção. É óbvio o risco de se tornarem imprestáveis. O Governo do Ceará precisa ter a coragem e a firmeza de encarar o problema. Hoje, o mais plausível é recolocar os equipamentos no mercado e tentar diminuir o tamanho do prejuízo.
Será que, assim como o Acquario, haverá interessados? Talvez, a preço de banana, sim. OPOVO

