Ressaca econômica
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A expansão de apenas 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre de 2026, conforme revelou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é a evidência mais bem acabada de que o modelo econômico vigente no País aproxima-se de uma ressaca. Não é de hoje que a economia brasileira vem perdendo fôlego, movimento que se renova a cada trimestre. Em termos anualizados, o PIB recuou de um pico de 3,6% no primeiro trimestre de 2025 para 1,9% no segundo trimestre deste ano.
É verdade também que nem o resultado do segundo trimestre, em linha com o esperado por analistas, nem a desaceleração mais ampla em curso surpreendem. A Selic em níveis persistentemente proibitivos tem cumprido o seu papel de esfriar uma economia que cresce de forma artificial, apoiada em gastos públicos e em consumo outrora elevado.
Contudo, a falta de surpresa a cada nova rodada de indicadores macroeconômicos não significa que o atual cenário e, em especial, o que se projeta para 2027 sejam menos preocupantes. Isso ocorre porque, apesar de a taxa Selic ter finalmente começado a cair em 2026, o ritmo de queda tem sido lento. A gastança sem freios do governo e a tendência de juros mais altos por um longo prazo nas economias desenvolvidas exigirá uma Selic ainda elevada por um bom tempo.
Paralelamente, por mais que o governo Lula siga estimulando o consumo da população – com linhas de crédito eleitoreiras que não deslancharam, a despeito das gambiarras da gestão petista –, o gasto das famílias estancou.
Na comparação com o primeiro trimestre de 2026, segundo o IBGE, o consumo das famílias teve variação negativa de 0,4%. Também pudera: endividado a juro alto, o brasileiro vê o espaço para o consumo se reduzir.
Tanto os dados do próprio governo como os de consultorias privadas têm mostrado níveis recordes de endividamento, comprometimento de renda e inadimplência entre as pessoas físicas. As jurídicas, sobretudo as pequenas e médias empresas, também têm enfrentado dificuldades para sobreviver, como demonstra a onda de recuperações judiciais que varre o País.
E tudo isso se dá em um momento em que o nível de emprego é quase pleno no Brasil. A desaceleração já em curso, porém, deve mexer nas taxas de ocupação e de desalento, hoje mais favoráveis.
Resta evidente que quem quer que vença as eleições presidenciais em outubro receberá, em 2027, uma economia em estado de fadiga. A era ébria do estímulo ao consumo dá claros sinais de esgotamento.
Para piorar, a taxa de investimento produtivo, como os gastos em infraestrutura e capital humano que permitem ganhos de longo prazo, ficou em 16,1% no primeiro trimestre, inferior à média histórica, já bastante baixa, entre 17% e 18%.
Enquanto seguir apostando em estímulos que nada estimulam a não ser inflação, sem privilegiar o aumento da produtividade, o Brasil seguirá se condenando a um crescimento bastante aquém de seu potencial, consolidando-se como país de renda média.

