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As externalidades da violência

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Uma pesquisa nacional encomendada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostrou o tamanho das externalidades negativas da violência no País.

 

Por exemplo, nada menos que 84% dos brasileiros dizem que a criminalidade afeta seu orçamento familiar. Chegam a 35% os que se viram afetados por golpes e fraudes e os que tiveram de cortar gastos com itens como alimentação e pagamento de contas em razão dessa violência. Além disso, 60% disseram que encontraram dificuldades para executar uma atividade profissional por causa da “presença de facções, milícias ou crime organizado”, 51% relataram ter deixado de comprar algo por medo de cair em algum golpe e 25% afirmaram ter rejeitado uma oportunidade de trabalho por temer a violência.

 

A pesquisa mensura, assim, como a falta de segurança prejudica o cotidiano e a economia dos brasileiros de modo claro. A mensagem que os cidadãos estão transmitindo é alarmante: primeiro, porque os entrevistados vocalizam o impacto da violência sobre suas vidas; segundo, porque denunciam uma afronta à sua dignidade. E não é digna a vida quando 1 em cada 3 pessoas afirma ter de remanejar recursos financeiros originalmente destinados à alimentação e aos estudos para se sentir mais segura, ao recorrer a uma viagem em transporte por aplicativo, por exemplo.

 

Decerto deve ser por isso que 24% dos entrevistados disseram ter deixado de frequentar algum tipo de comércio, restaurante ou espaço de lazer por temer serem vítimas de algum crime. E 38% afirmaram que já não usam mais um bem, como celular nas ruas, por medo. Não importa que as estatísticas digam que há queda nas taxas de homicídios, roubos ou furtos, ou de outros tipos de crimes. Em que pesem os dados oficiais, não são nada triviais os efeitos do medo da violência sobre a vida dos cidadãos, com profundos impactos sobre seu comportamento, consumo, lazer e trabalho.

E o problema se espraia pela sociedade. Outro levantamento, também da Fiesp, mostrou o custo imposto pela violência para as empresas. No estudo qualitativo, foram ouvidos representantes de 285 indústrias paulistas de transformação e os relatos preocupam: 4 em cada 10 empresas disseram que já foram vítimas de algum crime no último ano; 1 em cada 5 afirmou que já foi vítima de crimes virtuais; e 1 em cada 4 relatou ter deixado de investir ou expandir seus negócios por causa da violência.

 

Além de frear o crescimento do setor produtivo, a violência é onerosa. Segundo a Fiesp, 98% das indústrias relataram ter despesas com segurança privada, seguro e monitoramento. Quase 1 em cada 5 empresas vítimas teve perdas superiores a 1% do faturamento anual com o crime. E nada menos do que 70% das empresas reclamaram da perda de competitividade.

 

Um dado relevante é que quase um terço das empresas consultadas que sofreram algum tipo de violência respondeu que não fez boletim de ocorrência porque “não traria resultado”. Isso mostra o grau de desalento do setor produtivo com o Estado quando se trata de segurança pública. O efeito da violência ou do medo da violência, portanto, se manifesta de diversas formas. As empresas e os cidadãos precisam que o Estado cumpra sua função precípua, que é proteger a vida, o patrimônio e a propriedade dos contribuintes. Se isso não acontece, os brasileiros acabam pagando duas vezes por sua segurança, por meio dos impostos e também por meio de despesas com segurança privada ou em razão dos prejuízos causados pela violência em si – e ainda assim não têm garantia de paz para empreender, trabalhar, estudar e se divertir.

 

Tudo isso ajuda a aumentar drasticamente o chamado “custo Brasil”. Uma sociedade que precisa se preocupar cotidianamente com a violência e que toma decisões econômicas em função disso não tem energia e dinheiro suficiente para investir em aumento de produtividade e na busca da prosperidade. Perdem todos, mas sobretudo aqueles que têm menos recursos para se defender.

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