Busque abaixo o que você precisa!

Lula ameaça retomar o Ciência sem Fronteiras

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu que, se reeleito, recriará o programa Ciência sem Fronteiras, agora com foco em inteligência artificial, matemática e engenharia. Como candidato, Lula não tem poupado saliva em veículos festivos ou sabujos, enquanto foge de debates e sabatinas. Jornalistas independentes dificilmente deixariam de confrontá-lo com uma questão elementar: o que o Brasil recebeu em troca da primeira edição?

 

A motivação do projeto criado por Dilma Rousseff era pertinente. As universidades brasileiras são provincianas, com poucos alunos e professores estrangeiros, domínio precário de idiomas e baixa participação nas redes globais de pesquisa. O governo petista, porém, saltou dessa constatação genérica para uma meta de 100 mil bolsas, sem definir com rigor que competências deveriam ser adquiridas ou como serviriam às necessidades nacionais.

 

O número vistoso passou a governar o programa. Como era preciso encontrar dezenas de milhares de beneficiários em poucos anos, o intercâmbio de graduação concentrou 80% das bolsas, embora muitos estudantes não tivessem maturidade acadêmica ou fluência para acompanhar cursos exigentes. Daí a alcunha de “Turismo sem Fronteiras”. À medida que o prazo se aproximava, o governo reduziu exigências linguísticas. Quase 45 mil bolsas de graduação foram desaguadas somente em 2014, quando Dilma disputava a reeleição. Em vez de ajustar a meta às capacidades disponíveis, o governo flexibilizou critérios e improvisou concessões para fazer o programa caber na promessa.

 

As bolsas rendiam manchetes e uma cifra para propaganda. Já a qualidade dos destinos, o reconhecimento de créditos e o aproveitamento dos egressos cobravam trabalho institucional que só produziria resultados anos depois. O governo escolheu o marketing, enquanto remendava falhas de idioma, seleção e gestão de um programa que já nascera invertido.

 

Sem vínculos duradouros entre departamentos, projetos conjuntos e uma estratégia para atrair pesquisadores, a mobilidade em massa pouco fez para internacionalizar o sistema universitário. A obrigação de voltar ao Brasil não vinha acompanhada de laboratório, carreira ou empresa onde aplicar o conhecimento adquirido. Decerto houve bolsistas que ganharam fluência e repertório. Ganhos pessoais, contudo, não demonstram que uma política de R$ 13 bilhões tenha entregado ciência, inovação e competitividade em proporção ao investimento.

 

Um estudo de impacto de pesquisadores da FGV baseado em mais de 19 mil candidatos não encontrou os avanços esperados no ingresso na pós-graduação, no emprego formal ou no empreendedorismo – em alguns períodos, os efeitos foram negativos. O governo mediu partidas, mas embarcar estudantes sempre foi a parte mais fácil.

 

Uma reedição responsável teria de percorrer o caminho inverso. A formação internacional dos quadros da Embrapa, por exemplo, deu resultado porque sua missão e as carreiras já existiam antes do embarque. Os pesquisadores foram buscar conhecimentos que aplicariam em projetos e carreiras ao regressar. A lição não prescreve uma estatal de inteligência artificial, mas obriga o governo a dizer quem necessita desses especialistas e como serão aproveitados.

 

Primeiro devem vir a missão, as instituições brasileiras, os projetos, as carreiras e a avaliação. Depois se escolhem as modalidades, os bolsistas, os parceiros estrangeiros e a quantidade. Um novo programa deveria começar pequeno, concentrado em formação avançada, e só crescer depois de demonstrar resultados. Em um país com imensas carências na educação básica, bolsa não preenchida custa menos que bolsa concedida para satisfazer metas eleitorais.

 

Até agora, Lula ofereceu áreas da moda e uma promessa de palanque. Nada disse sobre a estrutura do novo programa nem respondeu pelos malogros do anterior. Cabe a ele demonstrar que pretende construir capacidades, em vez de reciclar uma vitrine. Sem essa inversão, a inteligência artificial fornecerá apenas um rótulo moderno aos velhos vícios do Ciência sem Fronteiras.

Compartilhar Conteúdo

444