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Crise no varejo reflete ambiente hostil de juros altos

Por Editorial / o globo

 

No último fim de semana, o Grupo Casas Bahia e as Lojas Marabraz, dois dos nomes mais tradicionais do varejo brasileiro, entraram com pedido de recuperação judicial por não ter como arcar com o pagamento de dívidas. Há 986 varejistas na mesma situação, alta de 20,4% nos últimos 12 meses, de acordo com o monitor mantido pelas consultorias RGF e Bizdoc. Nos mais variados setores, há 9,1 milhões de empresas inadimplentes, com R$ 233 bilhões de dívidas em atraso, pelos números da Serasa Experian — recorde na série histórica iniciada em 2016. O pano de fundo da crise de endividamento é a economia com juros reais entre os maiores do mundo.

 

A inadimplência atinge mais as micro e pequenas empresas — 95% dos CNPJs negativados — e o setor de serviços. Mas, em razão de altos volumes de mercadorias e margens de lucro estreitas, a dinâmica dos varejistas expõe de modo nítido o drama dos empresários. Juros altos inibem as vendas nas faixas salariais mais baixas e, na outra ponta, aumentam o custo de rolar a dívida. De um lado, há mais calote dos consumidores; de outro, custa mais caro financiar estoques e manter o negócio funcionando. No ano passado, a Selic nas alturas consumiu 45% do resultado do setor de bens de consumo e varejo, ante menos de 20% em 2023, pelos cálculos da consultoria Alvarez & Marsal.

 

Evidentemente, apenas a alta dos juros não explica a derrocada de gigantes como Casas Bahia ou Marabraz. Toda empresa em crise costuma ter um histórico de má gestão. Desde 2019, as Casas Bahia registraram prejuízo em 19 de 29 trimestres. Desde 2024, a empresa não sabe o que é balanço trimestral no azul. Com presença modesta no comércio digital, o receio de insolvência do mercado precipitou o pedido de recuperação. Na Marabraz, a causa foi distinta. Por décadas, o patrimônio imobiliário dos controladores era usado como garantia para linhas de crédito mais vantajosas. Brigas familiares puseram fim à manobra. Os bancos passaram a reduzir limites de empréstimos, e o custo da operação subiu. Em ambos os casos, o desfecho foi também resultado da desconfiança crescente com o setor do varejo depois da eclosão do escândalo das Lojas Americanas em 2023.

 

Manter juros altos é a única arma à disposição do Banco Central (BC) para controlar a inflação. Isso porque, na gestão Luiz Inácio Lula da Silva, o governo tem sido sistematicamente irresponsável com as contas públicas e precisa, por isso, tomar dinheiro emprestado no mercado pagando mais caro. Para manter a economia aquecida, aumentou o gasto sem se preocupar com a dívida. É certo que o desemprego caiu e a renda aumentou. Mas a expansão também pressionou a inflação, exigindo postura mais rigorosa do BC. Mesmo companhias do varejo bem geridas passam por dificuldades.

 

A campanha eleitoral acabou de começar. Espera-se que os candidatos sejam explícitos em relação a seus planos para a economia entre 2027 e 2030. Manter o receituário empregado desde 2023 será nocivo, quando não inviável. Os clientes de empresas que não conseguirem sair da recuperação judicial podem até ser absorvidos por concorrentes mais competentes, mas o saldo do ambiente hostil aos negócios criado pela alta dos juros é prejudicial a todos. O volume de empresas em apuros reflete um problema estrutural. Seja quem for o vencedor em outubro, será preciso fazer um ajuste fiscal robusto, que permita juros mais baixos.

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