Risco de Super El Niño exige mais presteza dos governos estaduais
Por Editorial / o globo
Expirou em 7 de agosto o prazo para que os estados enviassem ao governo federal seus planos de prevenção contra a temporada de incêndios florestais deste ano, que promete ser forte como resultado do Super El Niño que se anuncia. Apenas Pará e Amazonas enviaram o planejamento ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). Apesar de outros estados já terem anunciado medidas preventivas relacionadas ao fenômeno climático — caso de Acre, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro —, a omissão na comunicação dificulta o alinhamento das ações federais com o resto do país. Mais uma vez, o poder público reage de forma lenta para se prevenir.
De acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, há 95% de possibilidade de o El Niño, resultado do aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, ser muito forte, e 69% de chances de ser o maior desde o início de seu monitoramento, em 1950. O Brasil, pela extensão e localização, deverá ser um dos países mais afetados, com incêndios florestais nas áreas de seca e chuvas torrenciais, sobretudo na Região Sul.
A mais recente aferição das águas do Pacífico constatou aquecimento de 1,8°C. Nas projeções pessimistas, a elevação pode chegar a 4°C, configurando o cenário apelidado Super El Niño. Os governos começaram a se mexer tarde para mitigar os efeitos. “Talvez possamos estar preparados para os próximos El Niños, não para este”, diz José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais.
Um dos estados que criaram programas contra efeitos de El Niño é o Rio Grande do Sul, que há dois anos enfrentou enchentes históricas. O Rio de Janeiro montou um comitê para tratar da questão. O Consórcio Nordeste, formado por nove estados (MA, PI, CE, RN, PB, PE, AL, SE e BA), criou o Comitê Científico de Monitoramento e Enfrentamento das Emergências Climáticas, para orientar ações contra secas e ondas de calor, a partir de diretrizes do governo federal. Mas nenhum desses estados atendeu a tempo ao pedido do MMA sobre como tentam se precaver contra incêndios.
Deve-se acompanhar o que ocorre na Europa. Um dos últimos boletins sobre incêndios divulgados pela Comissão Europeia informava que o fogo havia atingido, até a semana passada, 567 mil hectares, área equivalente a três vezes o tamanho do município de São Paulo. É menos do que queimou na mesma época do ano passado, recorde da série histórica, mas mais que o dobro da média dos últimos 20 anos. O continente europeu também enfrenta ondas inclementes de calor, que já provocaram perto de 30 mil mortes neste ano. No Brasil, entre 2000 e 2020 houve 50 mil mortes causadas por altas temperaturas, segundo estudo do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais, da UFRJ.
O poder público, em todas as esferas, precisa levar os riscos a sério e aprender, com as catástrofes do passado, o custo da omissão.

