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O festim do crédito fácil

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Criado para melhorar as chances eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre motoristas e entregadores de aplicativo, público visto como mais simpático ao bolsonarismo, o Programa Move Motoristas só desembolsou R$ 2,2 bilhões (7,3%) dos R$ 30 bilhões dos quais dispõe para o financiamento de veículos novos, de acordo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

 

A baixa concessão de crédito por meio do programa deveria levar o governo a repensar o incentivo sem limites ao consumo. Extremamente endividado em cenário de juros escorchantes, ou até mesmo com o nome sujo no praça, o brasileiro está financeiramente sufocado e sem perspectiva.

 

De acordo com o Banco Central, o endividamento das famílias situava-se em 49,8% em maio, enquanto a inadimplência manteve-se no patamar recorde de 4,7%. Isso a despeito de uma nova edição do Desenrola, o programa de renegociação de dívidas que acaba de ser estendido até 31 de agosto, invadindo o período de campanha eleitoral.

 

Mas, fiel ao discurso de que “gasto é vida”, na imorredoura definição de Dilma Rousseff, o governo quer forçar o brasileiro a gastar aquilo que não tem de toda e qualquer maneira. Assim, o Move Motoristas é mais uma política pública que nem deveria ter sido lançada, por contrariar os dados objetivos da realidade, mas que é mantida para entregar aquilo que a gestão petista tanto deseja: votos.

 

Para tirar o máximo proveito eleitoral possível do programa, que expira em 15 de setembro, o governo vem pressionando os bancos a acelerar as concessões de crédito. Entre as instituições públicas, a pressão já surtiu efeito. Tanto a Caixa Econômica Federal quanto o Banco do Brasil passaram a aceitar como comprovante de renda formal os demonstrativos de pagamento que os motoristas recebem das plataformas para as quais prestam serviços.

 

Embora tentem justificar a mudança como um “aperfeiçoamento”, o que os bancos públicos estão fazendo é relaxar a análise de crédito, tratando como se formal fosse uma fonte de renda altamente inconstante e volátil.

 

Nada garante que um motorista de aplicativo mantenha a frequência da renda considerada no momento em que obteve o empréstimo para a compra de um veículo novo aprovado pela Caixa ou pelo Banco do Brasil. É verdade que o trabalhador formal também pode perder o emprego de um mês para o outro. Mas ele ainda conta com os recursos da rescisão de contrato, bem como com o FGTS.

 

Ademais, a análise rigorosa de crédito é uma ferramenta essencial para que os juros já elevados cobrados no Brasil não subam ainda mais.

 

Para o governo, porém, só o desembolso do total de R$ 30 bilhões reservado para o Move Motoristas parece importar, como deixou claro o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. “Estamos adotando melhorias que estão nos permitindo avançar no ritmo de aprovações”, afirmou.

A instrumentalização de bancos públicos para concessão de crédito direcionado no Brasil não é novidade. Mas reavivá-la, a despeito do recente e trágico legado que tal ação legou ao País, é um verdadeiro descalabro.

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