A falsa paz
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Há sinais de que um acordo entre Estados Unidos e Irã pode estar próximo. O presidente americano, Donald Trump, fala em entendimento. Os mercados oscilam entre alívio e cautela. As monarquias do Golfo pressionam por estabilização. Depois de meses de guerra, inflação energética e sobressaltos nos mercados globais, a perspectiva de alguma normalidade voltou a exercer enorme atração política.
Nada disso é irracional. A guerra expôs vulnerabilidades profundas. O Estreito de Ormuz continua sendo o principal gargalo energético do planeta. Seguradoras elevaram prêmios, cadeias produtivas sofreram abalos e aliados americanos descobriram, mais uma vez, quão vulneráveis permanecem suas cidades, refinarias, portos e usinas. Tampouco há entusiasmo, nos Estados Unidos ou no Irã, por uma escalada militar sem horizonte claro. A prudência exige descartar as fantasias de vitória rápida que tantas vezes seduziram Washington na região. Ainda assim, a substância do acordo importa mais que seu anúncio.
Nas últimas semanas, os objetivos americanos foram encolhendo. No início da guerra, a retórica era de transformação estratégica do Oriente Médio, desintegração das capacidades iranianas e queda do regime. Hoje, as discussões giram em torno de cessar-fogo prolongado, reabertura de rotas marítimas, alívio gradual de sanções e novas rodadas de negociação. Isso talvez reflita realismo tardio. Guerras longas costumam estreitar grandes ambições. Mas existe um limite além do qual a recalibração perde o caráter de prudência e se aproxima da capitulação. Esse limite tem nome e sobrenome: bomba atômica.
Se havia uma justificativa plausível para a guerra, era impedir que um regime fundamentalista, patrocinador de terroristas e abertamente hostil ao Ocidente preservasse a capacidade de produzir um artefato nuclear. Mas nesse ponto o acordo em discussão permanece nebuloso. As informações disponíveis sugerem fórmulas provisórias: diluição parcial do urânio enriquecido, moratórias, inspeções futuras e mecanismos indefinidos de monitoramento. Em alguns cenários discutidos publicamente, o material enriquecido permaneceria sob controle iraniano.
Conhecimento nuclear não desaparece com comunicados diplomáticos. Centrifugadoras podem ser religadas. Estoques podem ser recompostos. Moratórias expiram. Instalações subterrâneas continuam existindo mesmo quando temporariamente inativas. Um acordo sério exigiria parâmetros claros e rigorosos sobre enriquecimento, fiscalização, armazenamento de material sensível e consequências automáticas para violações. Sem isso, a guerra terá produzido uma situação curiosa: meses de bombardeios, disrupção global e desgaste estratégico apenas para devolver o mundo a uma versão mais instável da crise anterior.
Ormuz torna essa perspectiva ainda mais perigosa. O Irã certamente não venceu o conflito, mas provou que possui meios para impor custos maiores do que sua força militar poderia causar. Bastaram ataques seletivos, ameaças intermitentes e incerteza contínua para impactar energia, transporte marítimo, inflação e expectativas financeiras ao redor do mundo. A capacidade de chantagem do regime por meio do estreito ganha outra dimensão estratégica caso preserve capacidade nuclear latente.
Não há solução simples. Retomar grandes operações militares comportaria riscos enormes. Uma campanha indefinida de bloqueios e escoltas navais consumiria recursos exorbitantes. A hipótese de guerra ampla contra um país de quase 93 milhões de habitantes permanece politicamente tóxica e estrategicamente incerta. O dilema americano é real.
Mas justamente por isso o acordo precisa enfrentar o núcleo do problema, e não apenas administrar seus sintomas imediatos. Reabrir Ormuz aliviará mercados. Suspender hostilidades reduzirá tensões regionais e, com sorte, produzirá algum espaço diplomático. Tudo isso tem valor. O que não faz sentido é chamar de “paz” uma trégua construída sobre ambiguidade nuclear. Enquanto a principal ameaça permanecer intacta, toda solução será fictícia.
Encerrar a guerra pode ser necessário. Encerrá-la preservando a possibilidade de um Irã nuclear seria outra coisa.

