El Niño exige adultos na sala
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Brasil já começou a se preparar para um novo El Niño. Ao menos no plano científico. Uma nota técnica conjunta divulgada por Inpe, Inmet, Funceme e Censipam aponta alta probabilidade de formação do fenômeno no segundo semestre. A intensidade ainda é incerta; os riscos não. Seca mais severa na Amazônia e no Nordeste, temporais no Sul, pressão sobre reservatórios, agricultura, energia, logística e inflação compõem o horizonte de trabalho dos órgãos técnicos.
Previsões climáticas não existem para eliminar dúvida. Servem para reduzir surpresa. Aí começa o problema brasileiro.
O El Niño sempre fez parte da dinâmica climática do Pacífico. O contexto em que ele ocorre mudou. Oceanos mais quentes ampliam extremos, cadeias globais operam sob tensão recorrente e choques simultâneos passaram a se reforçar mutuamente. Fertilizantes pressionados por conflitos geopolíticos, crédito agrícola mais caro, energia vulnerável e eventos climáticos severos agora interagem num mesmo sistema. O resultado aparece no custo dos alimentos, no frete, nos seguros, nos juros e nas contas públicas.
A seca amazônica de 2023 interrompeu rotas fluviais essenciais para abastecimento e transporte. No Sul, enchentes destruíram estradas, cidades e infraestrutura logística. A inflação de alimentos avançou 8,2% em 2024, impulsionada em parte importante pelo último El Niño.
O País sabe onde rios tendem a baixar, quais áreas urbanas inundam, quais regiões agrícolas sofrem mais com irregularidade de chuva e quais reservatórios entram sob pressão em períodos prolongados de calor. A ciência climática acumulou capacidade respeitável de monitoramento e previsão. O contraste com o despreparo institucional é constrangedor.
Menos de 0,6% das emendas parlamentares individuais ao Orçamento de 2026 foi destinado à agenda ambiental e climática. Ações de proteção e Defesa Civil ficaram reduzidas a valores simbólicos. Contenção de cheias recebeu R$ 1; drenagem urbana, nada. O sistema político continua distribuindo recursos como se eventos extremos fossem acidentes imponderáveis, e não riscos recorrentes de alto impacto econômico e social.
A distorção é mais evidente porque as emendas costumam ser justificadas pela proximidade entre parlamentares e demandas locais. Na prática, a lógica é outra: “regionalismo” é mero disfarce retórico para clientelismo. Obras de retorno eleitoral imediato continuam prevalecendo sobre infraestrutura preventiva, cujo sucesso costuma ser invisível precisamente quando funciona.
Essa escolha cobra um preço crescente. Reconstruir estradas destruídas, socorrer municípios inundados, renegociar dívidas rurais, subsidiar crédito emergencial e administrar choques inflacionários custa muito mais do que prevenção minimamente séria.
A intensidade final do próximo El Niño talvez permaneça indefinida por alguns meses. A insuficiência da preparação brasileira, infelizmente, é bastante clara. Já passou da hora de a adaptação climática deixar de ser tratada como tema periférico de política ambiental e ser incorporada ao núcleo da racionalidade econômica, da infraestrutura e da gestão fiscal.

