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Pistas de pouso ilegal na Amazônia continuam a desafiar governo

Por 
Editoria   O GLOBO
Logo depois de assumir seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indignava-se com a profusão de pistas de pouso irregular na Amazônia, em especial as que ficavam próximas a reservas indígenas. “Temos 840 pistas clandestinas. Só perto da Terra Yanomami são 75. Não é possível não enxergar. Quem permitiu isso tem que ser responsabilizado”, disse à época. Estava certo. E continuaria certo se repetisse a frase três anos depois. A despeito das operações deflagradas pelo governo, o problema não dá sinal de arrefecimento.
A Amazônia Legal ainda conta com 2.837 pistas de pouso sem cadastro junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), de acordo com levantamento do Ministério da Defesa obtido pelo GLOBO por meio da Lei de Acesso à Informação. Quase um terço (30%) está localizado dentro de terras indígenas ou Unidades de Conservação. Essas pistas costumam ser usadas como estrutura de apoio ao garimpo ilegal ou ao narcotráfico, abrindo caminho para o crime na floresta.

As maiores concentrações estão nos estados de Mato Grosso (967), Pará (942) e Roraima (385). Somente o município paraense de Itaituba, polo de extração de ouro, reúne 218 pistas clandestinas. Dentro de seu território se encontra a terra dos mundurucus, onde foram detectadas 22 pistas não cadastradas. Não é coincidência que os três estados concentrem as atividades de garimpo no país. “As pistas são a principal estrutura logística do ouro”, diz Larissa Rodrigues, diretora de pesquisa do Instituto Escolhas. “Todo ouro, legal ou ilegal, é exportado de avião, pois tem muito valor para o mercado, mas um volume pequeno.”

Não se pode dizer que o governo tenha permanecido inerte. Forças Armadas, Polícia Federal e Ibama têm feito operações para destruir pistas clandestinas ou inutilizar balsas e maquinário do garimpo ilegal. O número de pistas em Roraima diminuiu com as operações no território ianomâmi, mas aumentou no Pará e em Mato Grosso. Houve também mudança de postura em relação ao governo Jair Bolsonaro, que não valorizava as ações de combate ao garimpo ilegal. Mas a persistência das estruturas clandestinas mostra que o atual governo tem falhado.

Há desafios logísticos evidentes. As áreas são enormes, demandando helicópteros ou aviões em ações de vigilância. Há dificuldades com radares que só cobrem distâncias restritas e não captam voos baixos. Mas, apesar das estratégias dos criminosos para tentar ocultá-las dos satélites, não se pode dizer que as pistas de pouso clandestinas fiquem escondidas. Elas rasgam acintosamente áreas da floresta.

 

O governo precisa intensificar as ações de combate às pistas clandestinas. Facções criminosas já estão presentes em 45% dos municípios da Amazônia Legal. Não se trata apenas de narcotráfico. As quadrilhas atuam em várias frentes de ilegalidade. Inutilizar as pistas significa enfraquecer o garimpo ilegal que contamina os rios, bloquear rotas do tráfico e do contrabando. Espera-se que Lula cumpra o que prometeu.

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