Inflação da guerra e da comida precisa ser enfrentada
As expectativas para a inflação deste ano sobem há oito semanas, em razão do impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços do petróleo e de seus derivados. De março para cá, segundo pesquisas do Banco Central, a projeção mediana se elevou de 3,91% para 4,89%, já acima do teto oficial —meta de 3% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual.
As consequências do conflito iniciado no final de fevereiro se refletiram de imediato no IPCA de março, que superou as previsões e atingiu 0,88%, ante 0,7% no mês anterior. A alta foi amplamente determinada por transportes (com variação de 1,64%) e alimentação (1,56%), a despeito dos subsídios para combustíveis criados às pressas pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
São dois grupos de bens e serviços de grande peso nos orçamentos domésticos e, portanto, explosivos para a popularidade de um governante em ano eleitoral. O custo da comida, que já havia retomado tendência de aumento antes da guerra, agora sofre efeito do encarecimento de fretes e fertilizantes usados na lavoura.
Combustíveis e alimentos também têm em comum preços voláteis, sujeitos a choques de oferta fora do controle da política econômica, decorrentes do clima ou da geopolítica. Por isso, em momentos como o atual, é recorrente o argumento de que seria inútil elevar os juros do BC, que só afetam a demanda de consumidores e empresas —como repetiu o vice-presidente, Geraldo Alckmin.
A tese tem base na realidade, tanto que bancos centrais e analistas fazem diferentes cálculos dos chamados núcleos da inflação, na tentativa de excluir choques temporários. O BC brasileiro, por exemplo, em diversas ocasiões recentes optou por dar mais tempo para o recuo da inflação, em vez de tentar cumprir a meta a ferro, fogo e recessão.
Daí não se deve concluir, porém, que a política de juros pode ficar inerte diante da carestia provocada pela guerra —que se espalhará por outros setores da economia se não for enfrentada.
É o que o BC chama de "impactos potenciais de segunda ordem" na ata da reunião do Comitê de Política Monetária divulgada nesta terça-feira (5). No documento, a autoridade monetária indica como se estreitou a margem para a queda da taxa Selic, ainda que tenha promovido um corte de 14,75% para 14,5% ao ano.
Se, no início do ano, acreditava-se que seria possível fechar este 2026 com juros de 12%, hoje já se trabalha com 13% ou acima. Prenuncia-se um panorama mais inóspito para o próximo governo, que herdará um Orçamento deficitário e uma dívida pública em escalada contínua e alarmante.
Pior seria, de todo modo, chancelar um patamar mais alto de inflação, que se perpetuaria por sucessivos repasses de custos e reduziria o poder de compra da população, sobretudo a mais pobre. O BC ganhou autonomia formal justamente para não se deixar influenciar por conveniências eleitorais de ocasião.

