Os impactos de longo prazo da violência doméstica
A violência doméstica contra mulheres não é um problema só de segurança, mas de saúde pública. É o que mostra o Global Burden of Disease, estudo internacional coordenado pela Universidade de Washington que, de 1990 até a versão mais recente de 2025, quantifica a perda de saúde causada por doenças, lesões e fatores de risco.
Em janeiro deste ano, um relatório do GBD publicado no periódico de medicina The Lancet revelou dados específicos sobre a violência contra o sexo feminino.
Em 2023, 608 milhões de mulheres com 15 anos ou mais já haviam sido agredidas pelo parceiro íntimo, o equivalente a 20,1% do estrato global. A África subsaariana tem a taxa mais alta (22,6%).
O bloco que engloba Europa e Ásia central (12,4%) é o mais bem colocado, seguido por América Latina e Caribe (14,7%). Uma notícia que traz certo alívio é a taxa do Brasil, de 10,4%, a segunda menor da região —Cuba tem 6,5%.
Além da prevalência da violência, a pesquisa também estima os impactos de longo prazo das agressões na qualidade de vida.
No mundo, a violência contra mulheres cometida por parceiros respondeu por 12,8 milhões de anos de vida saudável perdidos em 1990, ante 18,5 milhões em 2023. Mas, quando se considera o tamanho da população, a taxa caiu de 686,5 anos por 100 mil mulheres para 624,4 por 100 mil.
Já no Brasil, os indicadores bruto e per capita subiram, de 297 mil anos perdidos para 513 mil anos, e de 567,3 anos por 100 mil mulheres para 594,1 por 100 mil.
Tais dados refletem o fato de que mulheres que são ou foram agredidas por parceiros tendem a apresentar problemas de saúde que podem durar anos, mesmo após a separação, como depressão, ansiedade, autolesão, uso abusivo de drogas, contaminação por HIV e aborto.
Por ser um crime que ocorre no lar e no qual o agressor vive com a vítima, a violência doméstica exige ações integradas para lidar com sua complexidade, que envolvam educação, saúde e Justiça, apoio psicológico e social e campanhas de conscientização.
Também são necessárias delegacias e varas especializadas, informatização dos processos, medidas protetivas, casas de acolhimento às vítimas e monitoramento estatístico contínuo.
A impunidade, que estimula o crime e fragiliza vítimas, exige maior agilidade. E o Brasil tem muito a melhorar nessa seara.
De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os casos de violência doméstica demoram em média 429 dias para serem julgados, enquanto a fila de processos chega a 1,3 milhão.

