Busque abaixo o que você precisa!

Aumento recente do tabagismo exige ação de autoridades

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

É extremamente preocupante que a proporção de fumantes tenha voltado a crescer no Brasil, depois de queda consistente a partir dos anos 1980. De 2021 para 2024, último ano para o qual estão disponíveis os dados do Ministério da Saúde, ela subiu de 9% para 11,5%. É verdade que os fumantes já foram quase 16% há 20 anos — e eram mais de um terço dos adultos no final dos anos 1970. Mas a tendência de queda foi praticamente contínua até 2023, quando chegaram a 9,2%. A reversão recente põe em questão um dos programas de combate ao vício em nicotina mais bem-sucedidos do mundo.

 

O retorno do tabagismo preocupa não apenas pelos males associados ao cigarro, como câncer do pulmão ou doenças cardíacas, que ainda matam todo ano 180 mil pessoas no Brasil. Não bastassem as vidas perdidas, os efeitos da dependência de nicotina se fazem sentir anos ou mesmo décadas depois no sistema de saúde. Estima-se que o país gaste R$ 153 bilhões anuais para tratá-los — só no SUS, R$ 98 bilhões. E que os impostos recolhidos sobre cigarros cubram apenas 5% desse total.

 

Embora ainda não haja estudos consolidados ao longo do tempo, parece evidente que o crescimento recente no contingente de dependentes da nicotina está associado ao avanço do cigarro eletrônico entre os mais jovens. Mesmo legalmente proibidos, os vapes se disseminam de modo assustador. Um em cada nove adolescentes afirmava usá-los, de acordo com pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) do ano passado. Cinco vezes mais jovens usam vapes do que fumam cigarro comum.

 

Cerca de 24% dos jovens ouvidos na amostra de 9 mil entrevistados há três anos em pesquisa da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da organização global de saúde Vital Strategies já haviam experimentado o vape, ante menos de 20% um ano antes. Na primeira pesquisa, 6,1% disseram usar vape com frequência e 0,5% diariamente. Na segunda rodada, considerando todas as faixas etárias, 8% diziam fumar cigarro eletrônico, ante 7,7% da pesquisa anterior. Na faixa de 25 a 34 anos, a proporção subiu de 10,3% para 13,2%.

 

Além da nicotina, esses dispositivos, fabricados por criminosos sem nenhum tipo de vigilância, emitem fumaça com metais pesados e outros ingredientes nocivos. Sua disseminação entre jovens requer providências urgentes. Primeiro, fiscalização dura para que seja cumprida a resolução da Anvisa proibindo a venda de vapes. Também são necessárias campanhas de esclarecimento e engajamento de toda a sociedade civil, para que eles passem a ser encarados com o mesmo repúdio que o cigarro e se tornem intoleráveis em qualquer ambiente.

 

Um dos principais fatores responsáveis pela redução na proporção de fumantes na população a partir dos anos 1990 foram, segundo pesquisas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), políticas de encarecimento do cigarro. O preço mínimo do maço passará em maio de R$ 6,50 para R$ 7,50, patamar ainda considerado insuficiente para conter o avanço recente do tabagismo. Não se deve esperar pela entrada em vigor da reforma tributária, que prevê um “imposto do pecado” sobre álcool e outros produtos nocivos à saúde, para agir. A experiência aconselha tornar desde já mais caro o hábito de fumar. É inadmissível que a proporção de fumantes na população continue a crescer.

Compartilhar Conteúdo

444