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Não há segurança sem combate à corrupção policial

Não existe política séria em segurança pública quando parte de sua estrutura se converte em sócia ou protetora das organizações criminosas que deveria combater. Nas situações mais graves, a corrupção policial conecta-se a esquemas que alcançam setores dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Trata-se de um problema histórico do país, que o noticiário recente evidencia com o estopim de novos casos. Mesmo assim, a PEC da Segurança e o projeto Antifacção, recém-aprovados, passam ao largo da corrupção policial.

Em São Paulo, a Operação Bazaar, deflagrada no início de março pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, revelou um esquema de pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos para proteger uma organização criminosa ligada à lavagem de dinheiro, com manipulação de procedimentos, fraude processual e destruição de provas.

Entre os investigados, estão dois investigadores, um delegado e um escrivão da Polícia Civil do estado. Mais grave, relatórios sigilosos de inteligência financeira do Coaf teriam sido desviados de sua finalidade legal para constranger pessoas, pressionar alvos e sustentar extorsões.

No Rio de Janeiro, ainda neste mês, a Operação Anomalia expôs policiais civis e militares utilizando a estrutura do Estado para extorquir integrantes da facção criminosa Comando Vermelho, além de corrupção e lavagem de capitais. Há indícios de facilitação logística para o tráfico e milícias, blindagem de criminosos e ocultação de patrimônio ilícito.

Diante desse cenário, insistir exclusivamente no endurecimento penal é não compreender —ou não querer enfrentar— um dos principais fatores que impulsionam a atividade criminosa. Elevar penas sem desmontar redes de corrupção é mero punitivismo que não produz efeito estrutural.

A prioridade precisa mudar. Corregedorias não podem continuar burocráticas, frágeis e subordinadas. Devem atuar com autonomia, inteligência, controle de conflitos de interesse e capacidade efetiva de interromper ciclos de contaminação do aparato institucional.

É necessário rastrear enriquecimento incompatível e garantir independência funcional para investigar e punir desvios dentro das próprias corporações.

Segurança pública não se faz apenas com polícia na rua e punições mais duras. Sobretudo, faz-se com polícia íntegra. Quando a proteção ao crime se instala no Estado, não é só a ordem pública que entra em colapso. A democracia, os direitos e as garantias também passam a correr risco.

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