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Crise do agro: país só tem capacidade de armazenar 61,7% da supersafra, o menor patamar já registrado

Por  Vinicius Neder / O GLOBO

A capacidade de armazenagem de grãos deverá atingir este ano o maior déficit já registrado na série histórica. Para 2026, ficará 135,4 milhões de toneladas abaixo da produção esperada, de 353,4 milhões de toneladas, segundo estimativas da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Em tempos de crise financeira no agronegócio, que pode ser agravada pela guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, mais armazéns ajudariam a comercializar e escoar melhor mais uma supersafra, segundo analistas e produtores.

Pelas estimativas da Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária (CNA), com base em dados da Conab, os armazéns de grãos terão capacidade para guardar 61,7% da produção total que se espera colher na safra atual, o menor nível em 20 anos.

Nos EUA, o potencial de estocagem é de cerca de 130%, ou seja, há um superávit de 30%, segundo a CNA. Em 2006, quando o déficit no Brasil foi de apenas 500 mil toneladas, a capacidade equivalia a 99,6% da produção.

De lá para cá, a produção nacional triplicou, com investimentos no avanço das fronteiras agrícolas e na tecnologia de maquinário e de sementes. A infraestrutura, incluindo os armazéns, ficou para trás.

Armazéns sobre rodas

O investimento aquém do necessário deve-se aos juros historicamente elevados, à falta de profissionalização de gestão e a incentivos que levam os produtores a pensar no curto prazo, segundo especialistas, executivos e produtores ouvidos pelo GLOBO.

Sem ter onde guardar os grãos, produtores são levados a escoar a produção logo. Se tivessem mais capacidade, poderiam entregar os grãos aos poucos, aliviando a pressão de demanda sobre terminais portuários, vagões de trem e, principalmente, caminhões, que funcionam como armazéns sobre rodas.

— O produtor acaba ficando refém de todo mundo. Todo mundo quer abocanhar um pouco do lucro do produtor, desde o frete até as tradings — diz João Luiz Ferri, que produz soja, milho e trigo em 500 hectares na Fazenda Paraíso, em Luiziana (PR), a 430 quilômetros de Curitiba.

 

Mesmo com escala, a Coamo lança mão de recursos próprios para alguns investimentos, por causa dos juros altos, conta Galinari. As taxas de outros instrumentos financeiros, como títulos emitidos no mercado, também estão elevadas.

Apesar das reclamações, Guilherme Bastos, coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), chama a atenção para o fato de que o PCA, principal linha de crédito do Plano Safra para construção de armazéns, é subutilizado.

Na média dos últimos anos, os empréstimos ficaram em 64% do total disponibilizado, conforme cálculos do FGV Agro. As concessões não dispararam nem quando os juros ficaram mais baixos, entre 2018 e 2021.

Onde estão os gargalos?

Para Bastos, a subutilização é um sinal de que talvez o crédito não seja o grande problema e ampliar o PCA pode ser insuficiente. Segundo o coordenador do FGV Agro, falta um mapeamento mais detalhado de onde estão os gargalos de armazenagem e que vá além de apontar o déficit de capacidade — até porque, como não tem inverno rigoroso e distribui sua produção anual num fluxo com pelo menos duas grandes safras, o Brasil não precisa armazenar tanto quanto os EUA.

 

Desafio do custo

Um armazém de grãos pode exigir investimento de R$ 10 milhões a R$ 25 milhões, segundo fontes ouvidas pelo GLOBO. Além de caro, é um investimento cujos benefícios, na economia com fretes e comercialização mais planejada, demoram a aparecer. Por isso, requer financiamento, mas, com juros altos, a conta não fecha.

— O investimento em armazenagem é caro e tem um payback (quando o aporte se paga com outras economias) muito longo, quando não é inviável para o pequeno produtor — diz Airton Galinari, presidente executivo da Coamo.

 

Menos competitividade

As tradings são as grandes comercializadoras, que compram os grãos e exportam para o mundo todo. Sem armazenar, os produtores têm menos poder de barganha com elas, em um jogo dominado por gigantes multinacionais, como as americanas Cargill e Bunge, a suíça Louis Dreyfus e a chinesa Cofco.

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