Quando cumprir a meta fiscal não serve para nada
O Tesouro Nacional continuou no vermelho no ano passado. Na contabilidade peculiar do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as receitas superaram as despesas, sem contar juros, em R$ 13 bilhões. Cumpriu-se, assim, a meta de déficit zero, com generosa tolerância de 0,25% do PIB, ou R$ 31,8 bilhões.
Na vida real, o resultado é ainda pior do que parece. Quando se consideram todos os gastos com pessoal, custeio e investimentos, sem as múltiplas exceções criadas pela administração petista em seu cálculo, o rombo foi de R$ 61,7 bilhões, acima dos R$ 42,9 bilhões de 2025.
A meta oficial só foi cumprida, portanto, graças à exclusão de desembolsos de R$ 48,7 bilhões, com precatórios, principalmente, e rubricas variadas em saúde, educação e defesa nacional.
O acúmulo de exceções derruba a credibilidade do regime orçamentário, que perde transparência e o poder de sinalização para a sociedade. Por si só, o tal arcabouço fiscal, após somente dois anos em vigor, mal indica se as contas melhoram ou pioram. O que se pode dizer é que o quadro permanece dramático.
Quando são incorporados os juros aos cálculos, o déficit federal sobe a R$ R$ 891,9 bilhões. Somando estados, municípios e estatais, o número vai a R$ 1,063 trilhão, ou 8,34% do PIB, quase nada abaixo dos 8,47% de 2024. Trata-se de um dos piores desempenhos em todo o mundo.
É inútil culpar os encargos financeiros na casa do trilhão pelo descalabro. A taxa do Banco Central está em exorbitantes 15% ao ano justamente devido a pressões inflacionárias provocadas pelo aumento do gasto público sob Lula. Por óbvio, é o déficit orçamentário que primeiro cria a dívida e, com ela, os juros.
O endividamento, por sinal, avançou para 78,7% do PIB, com alta 2,4 pontos percentuais no ano passado. A trajetória ascendente, hoje sem perspectiva de interrupção, ameaça a sustentabilidade fiscal de longo prazo.
A política petista de ajuste se baseia exclusivamente em aumentar a arrecadação —e as receitas federais bateram recorde, alcançando R$ 2,89 trilhões, com crescimento real de 3,2%. Enquanto isso, as despesas não financeiras foram elevadas em 3,4%, puxadas por compromissos obrigatórios como Previdência Social e outros benefícios indexados ao salário mínimo.
Como esperado nesse contexto, o espaço para investimentos e custeio administrativo encolheu —e hoje se vê o paradoxo de um governo que gasta como nunca, mas corre o risco de não ter dinheiro para manter o cotidiano da máquina pública.
Para este 2026, ano eleitoral, as projeções apontam deterioração. A dívida pode saltar para 83% do PIB, e cumprir a meta de superávit de 0,25% do PIB, mesmo com gambiarras, exigirá ainda mais receita —já que cortes de gastos estão fora da mesa. Lula 3 vai deixando herança inglória para o próximo governo, que tem boa possibilidade de ser Lula 4.

