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A tragédia silenciosa da educação básica

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

No Brasil, uma tragédia exposta costuma indignar e mobilizar a sociedade e, assim, obrigar políticos a, por convicção ou oportunismo, tentar superar a inércia a fim de produzir respostas rápidas à reação popular. Mas, quando o desastre é silencioso, pode-se assistir a uma geração inteira ser condenada sem que o País transforme a morte lenta do futuro em desassossego, ação e mudança no presente. Pois é disso que se trata quando se observam os números radiografados pela edição mais recente do Anuário Brasileiro da Educação Básica.

 

Elaborado pela organização Todos pela Educação, em parceria com a Fundação Santillana e a Editora Moderna, o anuário expõe uma realidade catastrófica, marcada por desigualdades, carências de infraestrutura, aprendizado insuficiente ou inadequado e outras deficiências que revelam o óbvio: embora palco de uma sequência de boas políticas de base lideradas pelo Ministério da Educação desde o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) – exceção à gestão diversionista, errática e ausente durante os anos bolsonaristas (2019-2022) –, mesmo com a educação frequentemente listada no rol de prioridades nacionais, e apesar dos avanços nas redes estaduais e municipais de ensino e de um compromisso crescente de lideranças políticas com agenda educacional, resta reconhecer que estamos fracassando em oferecer o básico às crianças e adolescentes brasileiros.

 

Comecemos pela infraestrutura básica nas escolas públicas. Menos da metade delas tem acesso a esgoto, mais de 20% não contam com coleta de lixo e menos de 39% das salas de aula têm algum tipo de climatização, como ar-condicionado ou aquecedor. Só 20% das escolas têm laboratório de ciências no ensino fundamental II, enquanto no ensino médio o índice não chega à metade do total das escolas, um evidente desestímulo ao despertar do interesse dos jovens por profissões ligadas à ciência e um atalho certo para a dificuldade de entender conceitos científicos abstratos.

 

Itens básicos, como acesso à água potável, ligação de energia elétrica, banheiros e cozinha, estão presentes em 95% das escolas públicas, mas a situação é crítica em alguns Estados, como no Acre, em que água potável só existe em 62,9% das unidades, e em Roraima, onde apenas 72% contam com banheiros. A conectividade melhorou – mais de 95% das escolas públicas têm acesso à internet. Entretanto, só 44,5% seguem os parâmetros, como velocidade de conexão, considerados adequados para o uso pedagógico. Há ainda números ruins (e desiguais) na oferta de bibliotecas e salas de leitura, laboratórios de informática, bem como parquinhos e áreas verdes para as crianças na educação infantil.

 

Infraestrutura rudimentar se traduz em más condições de aprendizagem. Menos alunos saem do ensino médio com aprendizado adequado em português e matemática do que há dez anos. Nesse terreno as desigualdades regionais também imperam (assim como as diferenças entre brancos, negros, indígenas e amarelos), mas mesmo São Paulo, Estado mais rico da Federação, registrou notável queda no porcentual de alunos com aprendizado adequado – em matemática, por exemplo, o índice caiu dos já modestos 7,2% em 2013 para 4,9% em 2023, período analisado pelo anuário. A desigualdade racial também fica evidente: é o caso das taxas de conclusão do ensino fundamental e do ensino médio, com distâncias que refletem os efeitos de um ciclo histórico de marginalização. Os maus números se estendem aos docentes: a quantidade de professores sem graduação vem caindo, mas ainda é de 12,5%.

 

O mistério brasileiro é que tais números não inspirem choque e indignação nacional compatíveis. O risco, ao contrário, é resultar em acomodação, como se a espiral descendente produzisse apenas resignação diante do fato de que boas práticas e infraestrutura adequada são ilhas de exceção e não a regra – uma incômoda calmaria, só compensada pelo avanço de algumas poucas redes de ensino. Vivemos numa sociedade do conhecimento sem dar a devida centralidade à escola pública, mantendo o erro de ter apenas uma ínfima parte da população preparada para o século 21.

 

E assim o “Brasil do futuro” parece o álibi perfeito para justificar o vergonhoso fracasso do presente. Até quando?

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