Busque abaixo o que você precisa!

Sem ajuda da política fiscal, resta a cautela ao BC

EDITORIAL DA FOLHA DE SP

A manutenção pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central da taxa básica de juros em 15% ao ano era esperada —e se mostra correta na atual conjuntura. É positivo que a decisão, unânime no colegiado, tenha sido acompanhada por uma comunicação firme, que reafirma o compromisso da autoridade monetária com a estabilidade de preços.

O comunicado manteve o tom cauteloso, reiterando que o BC "não hesitará em retomar o ciclo de ajuste, caso julgue necessário".

A esta altura, em que já se observa alguma desaceleração da atividade e da inflação, a frase soa como uma ferramenta retórica para conter especulações sobre cortes antecipados em um momento de transição e maiores incertezas, agora reforçadas pelo tarifaço do americano Donald Trump contra o Brasil.

A esse respeito, e quanto ao cenário externo em geral, o Copom reconheceu o ambiente mais adverso, que demanda prudência e atenção, mas evitou conclusões quanto aos riscos inflacionários, o que seria de fato prematuro.

Há impactos baixistas, caso de alimentos, como carnes, que foram tarifados e podem ser redirecionados para o consumo interno. Outros setores podem ter de cortar produção. De outro lado, o risco de agravamento de sanções pode impactar fluxos financeiros, depreciando o real e pressionando inflação e juros.

No quadro doméstico, o BC reconheceu alguma perda de ritmo da atividade, mas manteve o diagnóstico de dinamismo do mercado de trabalho, que tende a demorar mais para refletir os efeitos do arrocho dos juros.

É uma boa descrição, na medida em que indicadores de consumo, crédito e produção mostram crescimento moderado ou mesmo ligeira queda, enquanto a taxa de desemprego atingiu nova mínima, de 5,8% no trimestre encerrado em junho.

No campo da inflação, há progressos. A projeção do BC para o IPCA no horizonte relevante (aquele em que os impactos da política monetária são plenamente incorporados) caiu de 3,6% para 3,4%, como esperado.

As expectativas de analistas também têm se reduzido nas últimas semanas. Mas o comunicado evitou celebrar essa melhora, repetindo o texto anterior sobre a alta de preços de itens mais estruturais, como serviços, ainda muito acima da meta.

Tudo somado, vão se alargando as evidências de desaceleração da economia e de convergência da inflação para as metas. Diante das incertezas e da incompletude do processo, porém, fez bem o Copom em demonstrar paciência.

A política monetária segue no rumo certo, mas ainda carece de colaboração da gestão fiscal, hoje o principal obstáculo para juros mais baixos no país. Mesmo assim, e a custo muito maior do que seria necessário se houvesse responsabilidade orçamentária por parte do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), é provável que haja espaço para corte da Selic neste ano ou no início de 2026.

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Compartilhar Conteúdo

444