Reunião do Brics traduz dificuldade de conciliar interesses conflitantes
Por Editorial / O GLOBO
A expansão do Brics se refletiu na Declaração do Rio de Janeiro, documento final do encontro do bloco. À medida que ele ganha mais integrantes, fica difícil abrigar interesses por vezes conflitantes. Dividido em 126 itens, o texto é semelhante a um projeto do Congresso em que cada país tentou pendurar “jabutis” para agradar a sua plateia. De concreto, ficaram apenas a nítida influência chinesa e o alinhamento com adversários declarados do Ocidente, como Irã e Rússia.
É verdade que o Irã não teve como impedir que o Brics formalizasse apoio à solução de dois estados para o conflito no Oriente Médio. Mas seu chanceler, Abbas Araghchi, soltou nota de divergência. Teerã recebeu, ainda, um afago descabido, com as críticas aos ataques recentes a “instalações nucleares pacíficas” — são persuasivas as evidências de que vinham sendo usadas para desenvolver uma bomba atômica.
A palavra “terrorismo” aparece mais de dez vezes, com referências a grupos na Síria e em Jammu e Caxemira, área disputada entre Índia, Paquistão e China. Não é sequer citado o grupo terrorista Hamas, financiado pelo Irã e autor da barbárie de 7 de outubro de 2023.
Em contraste, há diversas condenações a Israel. Em entrevista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a afirmar: “O que está acontecendo em Gaza já passou da capacidade de compreensão de qualquer mortal no planeta Terra. Dizer que aquilo é uma guerra contra o Hamas, e só se mata inocente, mulheres e crianças”. É o tipo de declaração que seria apenas mais uma repetição de suas opiniões absurdas, não contribuísse para o aumento preocupante do antissemitismo no Brasil.
O documento do Brics também condena “com veemência” ataques que “deliberadamente atingiram civis” russos, mas em nenhum momento registra as vítimas civis ucranianas de uma guerra que só começou graças à Rússia, A imagem de Vladimir Putin em videoconferência pairou sobre o encontro como um espectro nefando.
Sentado diante de diplomatas e da primeira-dama Janja Lula da Silva (que não tem mandato nem cargo oficial para participar do encontro), Lula adotou tom passadista em seus pronunciamentos: “O Brics é herdeiro do Movimento Não-Alinhado”. Ora, os não-alinhados buscavam equidistância de Washington e Moscou, enquanto o Brics é a cada dia mais percebido como fantoche de Pequim. Ele deixou transparecer sua ideologia ao atacar o “modelo neoliberal” e ao defender o dirigismo estatal, testado e fracassado aqui e noutros países.
Para o Brasil, o objetivo de obter apoio explícito do bloco a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU fracassou. Não se sabe o que o Brics alcançou ou conseguirá alcançar de concreto em relação às metas traçadas. Mas uma conquista já é certa: o presidente americano, Donald Trump, ameaçou sobretaxar em 10% todas as importações do bloco. A visão do Brics combina com o isolacionismo de Trump. Ambos têm a mesma consequência: retrocesso econômico, com mais pobreza e falta de perspectiva de os países se desenvolverem.
Sessão plenária do Brics no Rio de Janeiro — Foto: Pablo PORCIUNCULA / AFP

