Molecagem como método
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A Câmara perdeu uma ótima oportunidade de contribuir para o aprimoramento do pacote de medidas apresentado pelo governo com vistas ao cumprimento da meta fiscal de 2025. A audiência conjunta do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, nas Comissões de Finanças e Tributação e de Fiscalização Financeira e Controle, realizada no dia 11 passado, terminou de forma abrupta em razão do descompromisso da oposição bolsonarista com o Brasil, em particular dos deputados arruaceiros Nikolas Ferreira (PL-MG) e Carlos Jordy (PL-RJ).
Como é notório, não é de hoje que a bancada do PL prova que nada de bom tem a oferecer ao País, restando-lhe encenar no Congresso um espetáculo da pior qualidade para sua audiência nas redes sociais. A direção do partido decerto se orgulha de tê-lo transformado, em troca de votos – leia-se Fundo Partidário –, numa ermida para criminosos, como Carla Zambelli, e deputados e senadores escravos das telas, incapazes de raciocinar fora da lógica algorítmica. Portanto, foi exatamente para bagunçar, e não para discutir as propostas de Haddad, que os srs. Nikolas Ferreira e Carlos Jordy tomaram assento na audiência.
Prova maior disso é que, para fustigar o ministro, ambos usaram palavras claramente planejadas para produzir os chamados “cortes” para as redes sociais, viraram as costas e deixaram a sessão. Haddad, com razão, afirmou que não é assim que se trava um debate político republicano, qualificando a atitude dos deputados como “molecagem”. Foi o que bastou para que Nikolas e Jordy voltassem à sala e protagonizassem o banzé a que o País assistiu, levando ao encerramento da audiência sem que uma só das mal-ajambradas medidas do governo fosse escrutinada de forma séria – e razões para isso não faltavam.
O debate entre parlamentares e membros do governo de turno no Congresso é uma das expressões mais vivas do sistema de freios e contrapesos. Não é por outra razão que, quando convocados, ministros de Estado são obrigados a comparecer às audiências, sob pena de cometer crime de responsabilidade. Há razão para tanto rigor. É nesse locus que a sociedade, por meio de seus representantes eleitos, escrutina as ações e omissões do Executivo para, idealmente, aprimorá-las tendo em vista o melhor interesse público. O Congresso, porém, tem mostrado cabal despreparo – para dizer o mínimo – para exercer essa nobilíssima missão, haja vista as tocaias armadas contra a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, no Senado e, agora, contra Haddad na Câmara, entre outras.
É lamentável que parte expressiva do Legislativo, ao invés de assumir com seriedade as incumbências que lhe foram conferidas pelas urnas, prefira converter o espaço do debate democrático em palco para encenações grotescas voltadas exclusivamente à manutenção de relevância digital. A molecagem com Haddad foi só mais uma amostra de como a oposição bolsonarista, ao renunciar à política como instrumento de diálogo e construção, transformou o Congresso em terreno estéril para qualquer discussão racional sobre as questões mais prementes do País. Resta aos eleitores genuinamente preocupados com o Brasil escolher melhor seus representantes.

