Brasil deve reagir com serenidade a tarifaço de Trump
Por Editorial / O GLOBO
Donald Trump anunciou enfim seu tarifaço sobre importações. O anúncio marca uma inflexão na política comercial americana desde o fim da Segunda Guerra. Em vez de promover o livre-comércio, Trump aposta numa versão mercantilista de protecionismo, com a promessa de elevar investimentos na indústria e criar empregos. Sem dar ouvidos a quem avisa que as tarifas aumentarão a inflação e não resultarão no renascimento industrial prometido, ele deflagrou sua guerra comercial. É esperado — inevitável até — que haja retaliação.
À primeira vista, o Brasil parece ter ficado em posição confortável. As exportações brasileiras foram incluídas na menor “tarifa recíproca”, 10% em média. Mesmo assim, foi uma imposição injusta, já que a balança comercial é favorável aos americanos. O déficit brasileiro em 2024 foi de US$ 250 milhões, em trocas de R$ 81 bilhões. Esse déficit fica ainda maior incluindo a balança de serviços, cujo resultado foi de US$ 3,8 bilhões negativos em 2023 (para transações de US$ 26 bilhões). Em termos comparativos, o Brasil não depende tanto de vendas aos Estados Unidos, terceiro mercado para nossas exportações (12% do total, ou 1,7% do PIB). Uma análise atenta, porém, revela uma realidade mais complexa.
O mercado americano tem sido o principal destino das vendas industriais brasileiras. Bens de maior intensidade tecnológica responderam por 28% das exportações, o dobro da média para outros países. Para segmentos da indústria, o tarifaço de Trump trará dor de cabeça. Sem falar nos riscos intrínsecos à guerra comercial global, como desvio para o Brasil de mercadorias destinadas aos americanos, com reflexos sobre câmbio, inflação e juros.
O que fazer? É possível que Trump esteja disposto a negociar. Se a Organização Mundial do Comércio (OMC) perdeu relevância, a solução é estreitar contatos bilaterais. A tarifa média que incide sobre importações brasileiras de produtos americanos é estimada em 12,4%, bem acima dos 2,7% que os americanos pagavam sobre produtos brasileiros. Carros pagam 35% de tarifa aqui, e Trump impôs 25% lá. O etanol americano paga 18%. Para não falar em eletrônicos ou manufaturados. A economia brasileira é uma das mais fechadas, e há uma oportunidade para reduzir tarifas, de modo a obter concessões americanas. Além de facilitar acesso ao mercado dos Estados Unidos, a medida beneficiaria o consumidor brasileiro com importados mais baratos. Caso a estratégia fracasse, será preciso buscar mercados alternativos.
“O governo brasileiro avalia todas as possibilidades de ação para assegurar a reciprocidade no comércio bilateral”, afirmou o Itamaraty em nota. Sem açodamento, o Brasil deve buscar o entendimento. Se Trump se mostrar irredutível, há armas para retaliar. O Senado aprovou um Projeto de Lei que dá mais musculatura para o governo nas negociações, ao impor reciprocidade de regras ambientais e comerciais (o texto será examinado pela Câmara). Um dos pontos mais relevantes é autorizar retaliação na área de propriedade intelectual, atingindo setores como música, cinema, software e indústria farmacêutica. Tal estratégia já deu certo no passado: uma disputa com os Estados Unidos sobre algodão foi resolvida depois que o Brasil, autorizado pela OMC, impôs tarifas sobre direitos autorais. Desta vez, o ideal é não chegar a tal ponto. Mas é crucial estar preparado para elevar o tom se necessário.

