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Infraestrutura deficiente de transporte exige maior participação privada

Por  Editorial /O GLOBO

 

 

O déficit crônico nas contas públicas tem implicações na vida real que vão além dos efeitos dos juros altos necessários para conter a inflação. O caminhoneiro que padece em estradas malconservadas e o empresário que enfrenta toda sorte de problemas de logística para sua mercadoria chegar aos portos também estão entre as vítimas dos problemas fiscais do governo.

 

Em artigo no GLOBO, Vanilton Tadini e Roberto Guimarães, dirigentes da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), reuniram dados que expõem a situação crítica que resulta da falta de investimentos em transportes e logística (rodovias, ferrovias, hidrovias, aeroportos e mobilidade urbana). No ano passado, considerando recursos públicos e privados, foram destinados R$ 63 bilhões a infraestrutura, quando teriam sido necessários R$ 264 bilhões. Em dez anos faltarão mais R$ 2 trilhões em investimentos fundamentais para erguer e manter a rede de transportes do país.

 

Tais números explicam o cenário de rodovias precárias, portos congestionados, trens urbanos e metrôs superlotados. Nem a equivocada opção do Brasil no Pós-Guerra de tornar-se um país sobre pneus — deixando os trilhos e a navegação em plano secundário — garantiu uma malha de estradas decente. Na matriz de transportes, o rodoviário representa 70%. Há 1,8 milhão de quilômetros de rodovias, mas o Japão, cuja área corresponde a uma fração da brasileira, conta com 1,2 milhão. Os Estados Unidos têm 6,6 milhões, e a Índia, com menos da metade do território brasileiro, conta com 6,4 milhões de quilômetros. A situação não melhora quando se analisa a qualidade das rodovias. Apenas 220 mil quilômetros, 12,2% do total das rodovias federais, estaduais e municipais, são pavimentados. E 32 mil quilômetros, ou 14,5%, estão sob administração privada. São em geral as mais bem avaliadas pelos usuários.

 

Mesmo que o poder público quisesse voltar a investir em estradas, não teria condição, tamanha a crise fiscal. E, ainda que o poder público pudesse investir, a melhor alternativa seria avançar com as concessões. O agravamento dos eventos climáticos extremos aumentará a frequência de inundações, queda de pontes e barreiras, com vítimas e interrupção do tráfego. Não há como tornar as rodovias mais seguras sem investimento.

 

As concessões têm avançado. No final do ano, 19,1% das estradas pavimentadas estarão sob gestão privada — 32% das federais e 15,4% das estaduais. Ainda assim, restará 1,6 milhão de quilômetros com o setor público, dos quais apenas 178 mil quilômetros são pavimentados. A infraestrutura do país é um encadeamento de gargalos. Se continuarmos a investir em transporte e logística os mesmos R$ 63 bilhões de 2024, seriam necessários 54 anos para obter uma rede adequada. Não faltam argumentos para defender a maior presença da iniciativa privada no setor. Tarefa dos governos.

 

Caminhão devia de buracos na BR-158, no oeste de Goiás

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