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Sem freio: dados do Corpo de Bombeiros revelam que três de cada quatro acidentes de trânsito no Rio têm moto envolvida

Por  e   / O GLOBO

 

 

“Veio um carro branco, grandão, do Nárnia, que pegou a frente da minha moto. A moto voou para um lado, e eu voei para o outro”, diz o motoboy Adenir Rocha de Melo ao detalhar o acidente que sofreu às 22 horas no dia 28 de outubro na Rua Jardim Botânico, perto do Rua da Visconde da Graça. Ele entrou para a estatística do Corpo de Bombeiros, que, segundo dados obtidos através da Lei de Acesso à Informação, revelam que três em quatro ocorrências de trânsito (77%) atendidas pela corporação no ano passado na cidade do Rio envolviam motos. Ou seja, 20.877 de um total de 27.161 — o equivalente a um acidente com moto a cada 25 minutos.

 

— Dei mole. Ali, não tem retorno. Parei, olhei para um lado e para o outro. Só vinha um táxi, devagar, e eu acelerei para pegar a pista na direção do Humaitá, quando apareceu o outro carro. Olhei rápido na pressa de fazer mais entrega — recorda o motoboy, que quebrou o ombro direito e teve luxações em braço, mão, perna e pé esquerdos. — Ainda estou sem trabalhar, não consigo movimentar o ombro e aguardo na fila do Sisreg para fazer fisioterapia. Como não tenho INSS, minha esposa é que está sustentando a casa.

 

Enquanto 77% dos acidentes envolvem motos, esse tipo de veículo representa apenas 16% do total da frota que circula pela cidade. Isso mostra o quanto esse tráfego sobre duas rodas está vulnerável. Seguindo a mesma proporção, três a cada quatro vítimas (76%) socorridas por bombeiros se envolveram em acidentes com moto: foram 8.028 de um total de 10.531 no ano passado. Dados da rede municipal de saúde do Rio também alertam para a escalada de atendimentos em ocorrências com moto: foram mais de 19 mil em 2024, um acréscimo de 32% em relação a 2023.

 

Aos 38 anos, Adenir trabalha com entregas há 13 e já sofreu pelo menos oito acidentes, nenhum tão grave como o último. Ele lamenta que, diferentemente de quando começou, hoje, enquanto explode o número de mototáxis e motoboys nas ruas, as empresas passaram a exigir pouco ao contratar profissionais:

 

— Tenho moto com placa vermelha e curso de motofrete, o que deixaram de pedir. Atualmente, só com a habilitação e a moto você se cadastra nos aplicativos. Passou a ter muito motoqueiro novo, sem experiência nas ruas. Alguns pilotam até falando no celular. E tem a pressa também. A gente ganha mal e precisa correr para pegar mais serviço. Por isso, acontece tanto acidente.

 

Flagrantes de imprudência

Não é raro se deparar com motociclistas na contramão, avançando o sinal vermelho, sem capacete, cortando pela direita e mesmo circulando em calçadas e passarelas de pedestres. Tudo o que a legislação de trânsito proíbe e é estendido às motonetas (Scooters) e aos ciclomotores (veículos de duas ou três rodas, que atingem até 50km/h), incluindo a exigência de capacete e de placa.

 

O avanço batido nas regras se reflete nos atendimentos dos Bombeiros. Na capital, enquanto o número de acidentes em geral aumentou 18%, entre 2023 e 2024, os envolvendo pelo menos uma moto cresceram 24% em igual período. Somando os dois anos, metade das ocorrências com motocicletas são colisões com automóveis. Em segundo lugar, vêm as quedas, seguidas do choque entre duas motos.

 

A comparação com os demais veículos de transporte mostra o tamanho do problema. Em 2024, três em cada cinco atendimentos por acidentes de trânsito na rede municipal de saúde envolveram motocicletas. No ano passado, 38% dos pacientes que deram entrada nos hospitais municipais por acidente de trânsito tinham sofrido queda de moto e 20% haviam se envolvido em choque entre carro e moto.

 

— Os acidentes com moto são também um problema de saúde pública. Mais de 1.500 pacientes dão entrada nos nossos hospitais com ferimentos por acidente de moto por mês, sem contar os que não resistem até o momento do socorro e vão a óbito. Precisamos nos adaptar à nova realidade do trânsito. É fundamental uma mobilização entre os diferentes agentes do poder público em torno de novas medidas para proteger a vida e a integridade dos pedestres, passageiros e motociclistas — ressalta o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz.

 

‘Agora chega’

Para o assistente técnico da Secretaria municipal de Saúde (SMS) Douglas Magalhães, de 35 anos, um acidente no último dia 8 de fevereiro, próximo à Estação São Cristóvão do metrô, foi a gota d'água para tomar a decisão de abandonar as motocicletas. Ele seguia para o trabalho quando foi atingido por um carro próximo a um retorno. Douglas foi derrubado e, para não atropelá-lo, um outro automóvel bateu em sua moto.

 

— Tive escoriações e fraturei o dedo mindinho do pé direito, que ficou com o osso exposto — conta ele, que precisou ficar três dias internado no Hospital Municipal Souza Aguiar. — Sofri um outro acidente há uns quatro anos. Já estava andando bem menos de moto. Agora chega. Existe essa praticidade, a gente economiza tempo, mas perde depois na cama do hospital. Minha esposa já está providenciando a venda das nossas motos. São cinco.

 

O acidente com moto é o mais letal entre as ocorrências de trânsito e, mesmo quando a vítima sobrevive, pode provocar danos irreversíveis, como a amputação, informa a SMS. O Hospital Municipal Miguel Couto viu o número de pacientes feridos em acidentes com moto crescer quase 50% em 2024. Em 2023, foram realizados, em média, 165 atendimentos desse tipo por mês. No ano passado, a média mensal foi de 250 atendimentos.

Diretor do Miguel Couto, o ortopedista Cristiano Chame destaca que o grande complicador nesses casos é que, muitas vezes, eles resultam em politrauma. Isso obriga o paciente ficar internado por mais de uma especialidade, como ortopedia, cirurgia vascular e neurocirurgia, e a passar por mais de uma cirurgia, necessitando de leito de cuidados intensivos (UTI).

 

— É um paciente que, após a alta, precisará de cuidados pós-operatórios, curativos e até de reabilitação funcional, e que pode inclusive demorar a voltar à sua rotina diária de trabalho — acrescenta.

 

Numa perspectiva mais ampla, completa Chame, a grande incidência de acidentes com moto pode eventualmente contribuir para o inchaço da rede e, em épocas de pico, reduzir a capacidade de resposta das unidades a outras demandas importantes, como as cirurgias eletivas: — Muitas vezes o paciente tem uma fratura exposta, por exemplo, o que aumenta seu tempo de permanência em leito de internação, sobrecarregando o sistema de saúde.

 

Excesso de velocidade: mais infrações

Em paralelo, o crescimento do número de motos saltou no município do Rio e no estado. Em 2024, o Detran contabilizou 550.400 motos na capital, um aumento de 69,7% em uma década, enquanto a frota total subiu 21,1%. No estado, há mais de 1,65 milhão de motocicletas, 64% a mais do que em 2014 (o aumento dos veículos foi de 31%).

 

Boa parte dessas motos passaram a ser usadas como meio de transporte de passageiros, há dois anos autorizado no Rio. Nesse período, a empresa Uber, que opera uma plataforma de mobilidade, informa que cem mil pilotos já usaram a modalidade como forma de renda e três milhões de passageiros fizeram viagens de moto na Região Metropolitana do Rio.

 

O banco de dados do Detran, por sua vez, registra que, das mais de 6,6 milhões de multas aplicadas no estado no ano passado, 821 mil foram a motociclistas. Dessas, 2,75 milhões foram infrações cometidas na capital, sendo 424 mil por motos. Transitar em velocidade superior à permitida em até 20% é a infração mais cometida. Levando em consideração apenas as infrações que só podem ser cometidas por motos, no ano passado a Guarda Municipal aplicou 13.382 multas, sendo as mais registradas as por conduzir motocicleta sem capacete (9.069), as por transportar passageiro sem capacete (2.965) e as por transitar com o veículo em passarelas (1.007).

 

— A gente tem que andar rápido para conseguir ganhar dinheiro. Mas é preciso atenção, principalmente nos horários de rush, que são os piores. Tenho colegas que se machucaram feio — afirma o mototaxista Ian Silva, de 27 anos, que já sofreu quatro acidentes, desde 2017: — Graças a Deus, nos quatro acidentes, eu consegui me recuperar rápido e pagaram os prejuízos.

 

No entanto, muitas vezes não é assim que acontece. O advogado Armando de Souza lembra que o seguro obrigatório, o Dpvat, foi extinto em 2020, e seu substituto, o Spvat, foi cancelado por lei sancionada pelo presidente da República: — Em geral, acidentes causam vítimas, muitas delas pobres, que ficam desamparadas. Às vezes elas têm que ingressar com ação de responsabilidade civil, mas o valor não cobre as necessidades.

 

Retirado com um macaco

Assim como na capital, no estado o número de acidentes de trânsito envolvendo motos são maioria. No ano passado, somaram 43.943 (59,4%) de um total de 73.943 atendidos pelos Bombeiros.

 

No Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo, a quantidade de vítimas cresceu: de 4.823, em 2023, para 6.123, em 2024. Pior que isso. O coordenador do Centro de Trauma da unidade, Marcelo Pessoa, chama a atenção para o aumento dos casos graves: — Venho observando que, entre as vítimas, há muitos menores, que não passam por treinamento para pilotar uma moto, pessoas alcoolizadas e muitos que não usam o capacete. Há pacientes que ocupam um leito por 180 dias para conseguir se recuperar.

 

Com 21 anos, o motoboy Marcos Paulo Rodrigues Barros não abre mão do capacete nem bebe. Mas considera um milagre ter escapado de um acidente no dia 7 de outubro do ano passado, por volta de meia-noite e meia, logo após ter feito uma entrega no Centro de São Gonçalo. Ele cortou um carro, quando outro automóvel, que estava mais à frente, cruzou a pista para pegar o sentido contrário da via: — Esse segundo carro estava num ponto cego, e eu não o vi. O motorista foi fazer uma bandalha, e eu bati na lateral dele. Tentei tirar, mas não consegui. O que me falaram é que meu corpo foi ejetado, bateu num carro que estava parado e caiu embaixo de outro veículo que estava na direção contrária. Usaram um macaco para levar o carro e conseguir me tirar. Eu estava desacordado.

 

O jovem perdeu muito sangue e o baço, levou 20 pontos numa perna, sofreu lesão no pulmão, quebrou mão e ombro e rompeu dois ligamentos do joelho. Foram sete dias de UTI. Quatro meses depois do acidente, ele ainda não recuperou os movimentos.

 

— A moto teve perda total. O capacete, que eu tinha comprado em prestações, também acabou. Sou um sobrevivente. Você tem que dirigir não só por você, mas pelos outros. O médico falou que são 12 meses de recuperação, e vou ter que tomar vacinas pelo resto da vida, porque perdi o baço. Quando eu melhorar, penso em começar a andar de carro. Não quero mais trabalhar de moto — afirma ele.

 

Gabriel Moreira Ribeiro, de 28 anos, é outro motociclista que ainda não se recuperou do acidente que sofreu no início de setembro, na RJ-116, em Itaocara. Ele voltava para a empresa onde trabalha, com a comida que tinha ido comprar, para almoçar. O rapaz conta que outro motociclista, que vinha no sentido inverso, não fez a curva e o atingiu. Segundo ele, um carro que passava pelo local jogou para o acostamento atingindo outra moto. Um dos motociclistas morreu.

 

— Cheguei a ser entubado e fiquei 21 dias internado. Quebrei tíbia, fíbula, fêmur e clavícula. Ainda estou na cama, não consigo andar — lamenta Gabriel. O Hospital Estadual Roberto Chabo, em Araruama — referência no atendimento a pacientes politraumatizados para nove municípios da Região dos Lagos — recebeu, ano passado, 1.494 pacientes que sofreram acidentes com motos, 40% a mais do que os 1.044 de 2023. Diretor da unidade, o ortopedista Mário Jorge Espinhara, lamenta o número crescente de acidentes com motos: — A mistura de álcool e direção, assim como o uso do celular e a falta de respeito às leis de trânsito , entre outras causas, têm lotado os leitos do hospital de jovens com graves traumatismos. Quando sobrevivem, muitos ficam com sequelas permanentes.

 

No mês passado, um rapaz de 23 anos, vítima de acidente de moto que foi levado para Roberto Chabo, teve morte cerebral confirmada, e a família optou pela doação de seus órgãos. No mesmo momento em que ele era levado para o centro cirúrgico para a captação, outra vítima, o motoboy João Mendes, de 20 anos, seguia para a enfermaria, após ficar cinco dias no CTI em estado grave. Ele foi atropelado por um motorista alcoolizado e teve a perna amputada.

 

Por nota, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa as empresas que fazem a intermediação por aplicativos de transportes e mercadorias, ressalta que 100% dos condutores de suas associadas têm carteira de habilitação e documentação regular de seus veículos. Em relação a não exigência de placas vermelhas, alega que “o serviço oferecido pelas plataformas é um transporte de caráter privado". A Amobitec acrescenta que “os motociclistas parceiros são orientados a seguir as leis de trânsito vigentes, além de receber conteúdos educativos sobre direção segura".

 

Muito além de motos

Mas os conflitos em ruas e calçadas vão muito além de motos e empacam na precariedade da legislação. Tanto os denominados autopropelidos (a resolução 996/2023, do Contran, ampliou a categoria, absorvendo ciclomotores que atingem até 32 km/h) como as bicicletas (incluindo as elétricas) são dispensados do uso de placa, o que dificulta a identificação. Para patinetes, um decreto de 2019 proíbe o uso em calçada e fixa regras para trafegar em ruas e ciclovias do Rio. Há ainda lei municipal, de 2024, que prevê a circulação de bikes elétricas em ciclovias.

 

Só que a utilização de calçadas por autopropelidos e bicicletas está no limbo, lamenta o advogado Marcio Dias, especialista em legislação do trânsito. O artigo 9º da Resolução 996/2023 determina que o órgão ou entidade com circunscrição sobre a via (as prefeituras) pode autorizar a circulação de autopropelidos em áreas de pedestre, desde que limitado a 6km/h. O artigo 59 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), de 1997, fixa o mesmo em relação a bicicletas. Ambos dependem de regulamentação. “A Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria de Ordem Pública, da Guarda Municipal, da Secretaria de Transportes e da CET-Rio, realiza estudos para definir a melhor forma de regulamentar o tema”, responde o município.

— Está tudo mundo engessado. Até quem fiscaliza o trânsito acaba sem saber o que fazer — destaca Marcio Dias.

 

Entre os pedestre, sobra insatisfação.

 

— Nem na calçada se pode andar em paz. Do nada aparece um louco com bicicleta. E para atravessar a rua temos que olhar para os dois lados. Sem vem moto ou bicicleta é melhor esperar passar porque não costumam respeitar o sinal. Que mundo vivemos — lamenta o servidor aposentado Paulo César de Souza, morador de Botafogo.

 

Diante da dificuldade de fiscalizar, pois muitos veículos são dispensados do uso de placas, e da legislação com lacunas a serem preenchidas, o presidente da ONG Trânsito Amigo, Fernando Diniz ressalta que o caminho hoje é educar fortemente quem dirige, pilota e pedala:

 

— As pessoas precisam se dar conta da importância de respeitar as outras. Para isso, é necessário trabalhar muito a educação. E a minha maior preocupação é com o transporte de passageiros.



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