Exploração de poços subterrâneos ameaça recursos hídricos do Brasil
Por Editorial / O GLOBO
A fartura de recursos hídricos no Brasil transmite a impressão de que a água, necessária para gerar energia e conservar os ecossistemas, é inesgotável. Mas é uma impressão falsa. Um estudo de cientistas da USP em conjunto com pesquisadores americanos, publicado na revista científica Nature Communications, mostrou que mais da metade dos rios brasileiros tem perdido água para o subsolo, com risco de comprometer sua vazão. Além dos riscos ao abastecimento das cidades e ao equilíbrio dos ecossistemas, a exploração sem controle das águas subterrâneas pode provocar afundamento do solo, afetando a infraestrutura, com colapso de superfícies e surgimento de crateras.
De um total de quase 18 mil poços artesianos analisados em todo o país pelos pesquisadores, 55,4% apresentam nível de água subterrânea abaixo da superfície do riacho mais próximo. Isso sugere que a água dos rios se infiltra no subsolo, afetando a vazão e podendo levar ao esgotamento progressivo. A infiltração é natural. Contribui para recarregar os reservatórios subterrâneos e auxiliar no fluxo dos rios nos períodos de estiagem. Mas, quando ocorre de forma desequilibrada, com a exploração indiscriminada de poços, pode acarretar a redução da vazão. O problema é agravado por fatores como desmatamento e compactação do solo para atividades agrícolas ou urbanização.
Não se trata apenas de ameaça para o futuro. O estudo mostra que o problema dos “rios perdedores”, observado em países como Índia e Estados Unidos, já aflige o Brasil. Na Bacia do São Francisco, 61% dos rios analisados correm risco de perda de vazão devido à infiltração. Na do Verde Grande, afluente do São Francisco, o quadro é ainda pior: 74% dos cursos d’água podem ser afetados. A situação é crítica também na região conhecida como Matopiba (formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), fronteira agrícola onde a expansão da agricultura irrigada aumentou o uso da água subterrânea.
Autoridades deveriam seguir as sugestões dos cientistas para evitar o agravamento do problema. Uma delas é integrar a gestão das águas na superfície e no subsolo. Outra é monitorar constantemente os poços e o nível dos rios, de modo que a exploração não ultrapasse os limites sustentáveis. Além disso, eles recomendam o uso de sistemas de irrigação que reduzam o desperdício e investimentos em pesquisas e tecnologia que permitam gestão mais eficiente dos recursos hídricos.
O uso de poços, especialmente em regiões áridas, é fundamental para a agricultura e, consequentemente, para a população brasileira, ao aumentar a oferta de alimentos. Mas é preciso manter equilíbrio para não afetar a vazão dos rios, prejudicando quem se pretende beneficiar. Para isso, é essencial ter um sistema regular de monitoramento. Outros problemas podem reduzir a vazão dos rios, como secas extremas em decorrência das mudanças climáticas. Isso ficou evidente em 2024 no Amazonas. A associação dos efeitos do aquecimento global à superexploração das águas subterrâneas pode ter consequências catastróficas.

