Caso Carrefour expõe limites do protecionismo
Por Editorial / O GLOBO
O recrudescimento do protecionismo ganhou novo capítulo com a declaração do presidente global do varejista Carrefour, Alexandre Bompard, de “não comercializar nenhuma carne do Mercosul” nas lojas francesas “em solidariedade” a pecuaristas locais. Bompard questionou a qualidade do produto sul-americano. Mais que fazer demagogia com o público francês, ele deixou claríssimas as limitações do discurso protecionista que tem se disseminado mundo afora.
União Europeia e Mercosul estão perto de anunciar a conclusão do esperado acordo de livre-comércio. Agricultores franceses estão entre seus maiores opositores no continente e têm feito de tudo para tentar impedi-lo.
Revoltados com a declaração de Bompard, produtores brasileiros passaram a boicotar as lojas do Carrefour por aqui. Com o risco de desabastecimento na operação que responde por um quarto do faturamento global do grupo, o Carrefour publicou nota para se retratar. O texto ignora o principal. Como bom varejista, o Carrefour deveria declarar que ofereceria a melhor carne pelo preço mais baixo, independentemente da procedência. Em vez disso, afirma que continuará a comprar “quase exclusivamente” o produto francês na França e o brasileiro no Brasil. Não houve mudança prática.
A verdade é que, enquanto o agronegócio brasileiro conquistou nas últimas décadas sucessivos ganhos de produtividade à custa de investimento em tecnologia — sobretudo para atender aos rigorosos padrões fitossanitários dos países para onde exporta —, o setor agrícola francês segue com baixa competitividade, dependente dos subsídios da Política Agrícola Comum da União Europeia. O nacionalismo comercial desincentiva a busca por inovação e aumenta os preços dos produtos. A conta fica toda com os consumidores.
Infelizmente, os danos do protecionismo não estão restritos à França. Donald Trump declarou que, de volta à Casa Branca, imporá tarifa de 25% sobre produtos importados do México e do Canadá, parceiros dos Estados Unidos em acordo de livre-comércio. Disse que manterá a alíquota alta até os dois países acabarem com a “invasão” de drogas e imigrantes ilegais. Também ameaçou tarifa adicional de 10% sobre produtos da China e acusou o país de enviar drogas aos americanos.
Trump parece ignorar que seus eleitores pagarão um preço alto por tais barreiras comerciais. Juntos, México, Canadá e China somam mais de um terço de tudo o que os Estados Unidos importam e exportam. São responsáveis por milhões de empregos em distintos setores, da agricultura ao automobilístico. O encarecimento das importações fará os demais preços subirem, alimentando a inflação. A eventual retaliação dos países afetados pelas barreiras dificultará o acesso de exportadores americanos a outros mercados.
Tudo somado, o mundo inteiro perde. Produtores sem competitividade ganham mercado cativo, e os produtivos deixam de ter incentivo para inovar. No ano passado, o fluxo global de trocas caiu 1,2%, segundo a Organização Mundial do Comércio. A previsão é de recuperação, mas para isso a onda mercantilista precisa perder força. Um bom começo seria a conclusão do acordo Mercosul-UE. Uma vez implementado, se o Carrefour insistir em rejeitar a carne brasileira, é certo que outros varejistas saberão oferecer aos consumidores franceses o produto melhor e mais barato.

