Militares não perdem por esperar o relatório final da CPI. Ganham!
Josias de SouzaColunista do UOL…
Termina em 18 de outubro a CPI do 8 de Janeiro. Na véspera, será levado à vitrine o relatório final da senadora Eliziane Gama. Até lá, não haverá novos depoimentos. Há no material à disposição da relatora um déficit de fardas constrangedor e comprometedor. A comissão se absteve de convocar oficiais das Forças Armadas que devem explicações ao país.
A lacuna constrange porque decorre de um acordo tácito firmado nos subterrâneos de Brasília, longe dos refletores. Compromete porque disseminou-se na Praça dos Três poderes a percepção segundo a qual alguns militares contribuíram -por ação ou omissão— com a formação da conjuntura que produziu a tentativa de golpe.
Quer dizer: É impossível elucidar em termos definitivos os fatos que levaram ao quebra-quebra nos prédios do Congresso, do Supremo e do Planalto sem incluir no roteiro o papel desempenhado por esses militares…
Em 25 de setembro, às vésperas do depoimento à CPI do general Augusto Heleno, que chefiou o Gabinete de Segurança Institucional sob Bolsonaro, o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, reuniu-se com o ministro José Múcio, da Defesa. Disse que foi perguntar se haveria algum "constrangimento" caso fossem convocados oficiais do Exército e da Marinha. Após o encontro, Múcio declarou: "Absolutamente nenhum constrangimento".
Àquela altura, já estava convocado o general Braga Netto, ex-ministro da Defesa e companheiro de chapa de Bolsonaro. Estavam pendentes de votação requerimentos de convocação de outro ex-ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, e de dois ex-comandantes de tropa: o almirante Almir Garnier, da Marinha; e o general Marco Antônio Freire Gomes, do Exército. Seus nomes foram mencionados pelo delator Mauro Cid como participantes de uma reunião na qual Bolsonaro discutiu a hipótese de virada de mesa… -
Deu-se o seguinte: o depoimento de Braga Netto foi adiado duas vezes e, finalmente, cancelado. Embora fosse majoritária na CPI, a bancada do governo se absteve de acionar sua maioria para aprovar a convocação de Freire Gomes e até a de Amir Garnier, que, segundo o tenente-coronel Mauro Cid, apoiou a ideia de um golpe. O presidente da CPI, deputado Arthur Maia sequer colocou os pedidos em votação. E a banda muda da comissão aceitou passivamente o acobertamento…
Ficaram entendidas duas coisas: 1) A falta de "constrangimento" mencionada por Múcio após conversar com o líder do governo Randolfe era cenográfica. 2) Os militares não perdem por esperar pelo relatório final da CPI. Eles sempre ganham. Resta agora saber se a Polícia Federal também tratará os militares como bibelôs intocáveis…
Enquanto não for elucidada a atuação de certos militares, fica comprometida a intenção de preservar a isenção as Forças Armadas como instituição comprometida com a Constituição.
Opinião
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