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A mexicanização do crime organizado no Brasil

Por Hamilton Mourão / o estadão de sp

 

A década de 1990 registrou o enfraquecimento dos cartéis colombianos e o consequente fortalecimento dos narcotraficantes do México, que se capacitaram para abastecer o mercado de drogas dos EUA e da Europa. O incremento e a especialização das atividades criminosas fizeram com que hoje o país viva sob o flagelo de um nível de violência absurdo, em que criminosos protagonizam uma relação de poder paralelo ao Estado, impondo sua autoridade pela disseminação do terror e do medo.

 

O modus operandi utilizado pelos cartéis mexicanos se caracteriza pelos assassinatos indiscriminados, execuções públicas, exposição de corpos esquartejados, ataques a postos das forças de segurança, atentados com explosivos, sequestros, extorsão, chantagem, corrupção e infiltração estatal, moldando um lamentável quadro em que o povo, infelizmente, torna-se a principal vítima e refém desse estado de coisas. Tal situação propiciou que, a partir de 2010, surgissem em algumas cidades as “milícias populares”, que buscavam fazer justiça com as próprias mãos e combater os cartéis que brutalizavam a população.

 

No Brasil, ainda que de maneira diferente e menos intensa do que ocorre no México, vemos a situação da segurança pública se deteriorando a olhos vistos. As duas principais facções criminosas do País já ultrapassaram as fronteiras de seus Estados de origem, associando-se a outras, em nível nacional e também internacional. Além disso, diversificam seus negócios, atuando em áreas como o garimpo e a extração ilegal de madeira. O resultado é um aumento rápido e expressivo de seu poder econômico, da violência e, por óbvio, de sua capacidade de influência.

 

Na fronteira com o Paraguai, particularmente na região de Pedro Juan Caballero, são recorrentes os intensos tiroteios e mortes. Mais recentemente, na Bahia, Estado administrado pela esquerda há vários anos, vê-se uma verdadeira guerra urbana, em que narcoterroristas enfrentam as forças de segurança de maneira clara e fortemente hostil. No Rio de Janeiro, meliantes treinam táticas militares de operações urbanas a céu aberto. Em São Paulo, bandidos atacam policiais com armas automáticas e de grosso calibre, de dia e a céu aberto.

 

Enquanto isso, o governo de turno, atônito e sem um norte, não consegue entender as variáveis do problema e, portanto, mostra-se imobilizado e incapacitado para buscar a resolução da equação da segurança pública no Brasil. Não há a formulação de política pública para o enfrentamento do problema e a sociedade, cada dia mais sofrida, vai percebendo, imobilizada, a existência e a força crescente de uma nova e globalizada economia do crime, especialmente fundamentada no tráfico de drogas.

 

A mera retórica das injustiças sociais não resolverá! Há que ter vontade política e coragem para agir, num cenário em que os riscos são realidade e a solução não virá no médio prazo. Como ponto de partida, não se pode fugir do investimento em inteligência e sua integração, da capacitação e valorização das polícias e do endurecimento do arcabouço penal. Mas não nos enganemos, há que ir para a guerra e atuar para combater a expansão das facções narcoterroristas, diminuir as atividades criminosas nas regiões fronteiriças, desarticular as organizações criminosas nas instalações prisionais e não permitir o controle de territórios pelo crime organizado. O desafio é imenso, mas só dessa forma será possível cessar a rápida evolução do quadro atual.

 

Por derradeiro, vejo como claros os sinais que apontam na direção de uma mexicanização do Brasil. A inação do Poder Executivo e as ações cada vez mais ousadas e articuladas do crime organizado, bem como sua presença, mesmo que tímida, nas estruturas estatais, são sinais preocupantes e materializam um ponto de inflexão que não pode ser transposto. Para que não precisemos ver o povo obrigado a fazer justiça com as próprias mãos, o braço do Estado precisa agir para não permitir que se perca, por completo, o controle da segurança pública no País.

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SENADOR DA REPÚBLICA

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