Os investigadores-cidadãos da CPI - FOLHA DE SP
Ronaldo Lemos
Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.
Um dos aspectos mais interessantes e menos falados da CPI da Covid-19 é como ela provocou um movimento de investigação “crowdsource” de abrangência nacional. O termo “crowdsource” diz respeito a como uma atividade pode ser distribuída entre participantes de toda a internet, que, agindo juntos, conseguem produzir uma espécie de inteligência coletiva.
Diferentemente de CPIs anteriores, os senadores da CPI da Covid-19 não estão limitados no processo de investigação. Enquanto os depoimentos e as investigações acontecem, usuários da rede em todo o Brasil se mobilizam para encontrar inconsistências nos depoimentos e até mesmo realizar investigações por conta própria. O resultado dessas atividades é então postado na internet, copiando em tempo real os integrantes da comissão.
A CPI —ao contrário do que tem sido dito— não é um espetáculo a que a plateia assiste calada esperando o final para bater palma. É um jogo participativo que transformou um contingente enorme de usuários da rede em investigadores-cidadãos, que participam ativamente dos lances de cada dia. É como se a quarta parede tivesse sido totalmente derrubada.
Isso ficou claro com depoimentos propositalmente confusos da semana passada. Com a quantidade de informações novas trazidas, conjugadas com pistas falsas, houve uma intensa interação entre senadores e esse conjunto de investigadores-cidadãos enquanto os próprios depoimentos ocorriam.
Foram os usuários da internet que conseguiram organizar minimamente a confusa trama, mostrando as inconsistências do que estava ocorrendo e devolvendo os achados de volta à CPI, que na hora assimilou as informações novas.
Esse fenômeno de investigação “crowdsource” não é novo. Outros crimes graves foram investigados dessa forma. Um exemplo emblemático foi o atentado na maratona de Boston, em 2013. O FBI praticamente não tinha pistas dos autores. Foi quando o agente especial Richard DesLauriers fez um apelo ao público para que enviasse imagens do evento captadas por meio de celulares e câmeras de vigilância. O FBI recebeu então 13 mil vídeos e mais de 120 mil fotos. Em um dos vídeos analisados, proveniente de uma câmera de segurança, o FBI identificou o suspeito, que acabou sendo condenado pelo ato terrorista.
É uma pena, no entanto, que esse tipo de mobilização “crowdsource” aconteça apenas com eventos que conclamam o interesse público. Outros fatos igualmente graves estão em curso, mas não têm mobilizado atenção nenhuma. Ao contrário, passam desapercebidos.
Um exemplo é a atual proposta de reforma eleitoral em curso no Congresso. Trata-se da maior reforma eleitoral desde a redemocratização. São mais de 900 artigos de lei divididos em três frentes diferentes que ninguém leu. A maioria esmagadora das pessoas nem sabe que ela existe. Só que o Congresso quer aprovar tudo em 15 dias. Se a reforma seguir do jeito que está, terá o efeito de piorar o sistema eleitoral brasileiro de forma irremediável.
Uma solução seria aplicar a mesma energia de “crowdsource” que está sendo direcionada à CPI também no acompanhamento da reforma eleitoral. Vale correr porque seus articuladores estão com pressa. Querem justamente passar a boiada antes que a inteligência coletiva perceba o que estão fazendo.

