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A hora da virada II - O GLOBO

Se o desenvolvimento sustentável possui relevância pelo mundo afora, no Brasil ele é visto com desinteresse pelo governo e por alguns setores empresariais. Ao reagirem negativamente a essa tendência global, quem perde são a sociedade e as gerações futuras.

Enquanto o mercado se apropria de certas expressões sofisticadas para distinguir as cidades — inteligentes, compactas, vigiadas, polifônicas, genéricas, entre outras —, os aspectos econômicos, sociais, culturais e políticos são colocados de lado, sem a menor cerimônia.

Atenta a essa questão e preocupada com o fato de menosprezarem os problemas ambientais, a Organização das Nações Unidas (ONU), em 2015, definiu 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e os incluiu na Agenda 2030 dos países que participaram dessa iniciativa. O Brasil fez parte desse grupo.

São eles: erradicação da pobreza; fome zero e agricultura sustentável; saúde e bem-estar; educação de qualidade; igualdade de gênero; água potável e saneamento; energia limpa e acessível; trabalho decente e crescimento econômico; indústria, inovação e infraestrutura; redução das desigualdades; cidades e comunidades sustentáveis; consumo e produção responsáveis; ação contra a mudança global do clima; vida na água; vida terrestre; paz, justiça e instituições eficazes; parcerias e meios de implementação.

O maior desafio será a erradicação da pobreza. Se não forem incorporados alguns princípios do Estado do Bem-Estar Social ao modelo de desenvolvimento econômico de cada país, esse objetivo dificilmente será alcançado. Caso a desigualdade social se perpetue, assistiremos, em breve, à ruptura do tecido urbano e social das grandes cidades.

O Rio já apresenta sinais dessa realidade. Atualmente, cerca de um quarto da população carioca não possui recursos para adquirir sua moradia no mercado regulamentado. A alternativa é erguer sua habitação nas favelas e nos loteamentos irregulares, localizados em áreas periféricas da cidade.

Sabemos que urbanizar favelas não é uma tarefa simples. Porém esse argumento não pode servir de desculpa para o poder público cruzar os braços e deixar essas comunidades no estado precário em que se encontram. Muito menos tolerar que elas sejam uma fonte ilícita de renda para traficantes e milicianos que extorquem os seus moradores.

Urbanização de favelas exige planejamento, projeto, negociação e, principalmente, recursos financeiros para contenção de encostas; implantação de redes e estações de tratamento de esgoto; drenagem de águas pluviais; distribuição de água potável; iluminação pública; coleta seletiva de lixo; vias pavimentadas para circulação de pedestres e transporte coletivo local, entre outros serviços.

Além desses elementos de infraestrutura, essas comunidades precisam incorporar escolas com ensino de qualidade; áreas de recreação e lazer; posto de saúde; centro social; espaços culturais; sede para a administração local; polícia comunitária; linhas de crédito para melhorias habitacionais e assistência técnica profissional.

Moradores cujas casas forem eventualmente demolidas em razão das obras de urbanização deverão ser realocados nas proximidades da comunidade. Esse é o caminho mais indicado para melhorar a qualidade de vida dessa parcela da população e reduzir os contrastes urbanos existentes na cidade.

Com a proximidade das eleições municipais, o Rio ganha um novo alento para superar o estado de abandono em que a cidade se encontra. Espera-se um prefeito que tenha competência e determinação para recuperar a cidade e transformá-la para atender à sua vocação.

O Rio tem tudo para ser um centro avançado de ensino e de pesquisas especializadas; uma cidade turística nacional e internacional; e um lugar reconhecido como sede de eventos culturais e festivos. Empresas prestadoras de serviços serão incorporadas a esse processo de revitalização da cidade. Chegou a hora da virada, não há mais tempo a perder. 

LUIZ FERNANDO JANOT

 
 
 

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