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Queda nas pesquisas - O ESTADO DE SP0

A rejeição ao governo de Jair Bolsonaro não para de subir, como resultado de sua cada vez mais evidente incapacidade de exercer o cargo para o qual foi eleito em 2018. A mais recente pesquisa XP/Ipespe mostra que chegou a 50% a parcela de cidadãos que consideram o governo “ruim” ou “péssimo”. Em março, quando a pandemia de covid-19 chegou de vez ao Brasil, 36% tinham essa opinião. Ou seja, o comportamento absolutamente irresponsável do presidente ao longo da crise parece ter sido decisivo para que um grande número de eleitores afinal perdesse a paciência com Bolsonaro.

O que espanta, contudo, é que a fatia dos brasileiros que consideram o governo de Bolsonaro “ótimo” ou “bom” ainda seja de 25%. Esse porcentual já foi muito maior - estava na casa dos 40% no início do mandato, em janeiro de 2018, e mesmo em abril passado, quando a pandemia já havia se instalado e revelava ao mundo o completo desgoverno bolsonarista, esse índice se mantinha em torno de 30%.

Ainda que o número esteja diminuindo, é assombroso que haja tanta gente disposta a apoiar o governo e a ver em Jair Bolsonaro um administrador “ótimo” ou “bom”, mesmo depois das inúmeras provas que o presidente já deu de sua inépcia. Somente desinformação e ignorância, embora sejam evidentes, não explicam satisfatoriamente esse fenômeno.

Como destaca um artigo de Ivan Briscoe, do International Crisis Group, publicado recentemente na revista Foreign Affairs, algo semelhante ocorre na Venezuela do ditador Nicolás Maduro. Malgrado seu governo ser uma desgraça para seu país, o sucessor do caudilho Hugo Chávez ainda mantém um apoio de pouco menos de um quarto da população.

Esses venezuelanos parecem nutrir pelo ditador uma relação de lealdade, construída ao longo de um regime que se apresentou aos desvalidos como campeão da justiça social contra o capitalismo. Criou-se então um sentido de comunidade ideologicamente coesa e solidária, obviamente incentivado pela propaganda estatal, mas tão genuíno quanto possível num ambiente farsesco como é a Venezuela bolivariana. Como resultado, a pressão política contra o ditador, ao contrário de enfraquecer esses laços comunitários, colabora para fortalecê-los: para seus devotos, Maduro, como Chávez e Fidel Castro antes dele, é a resistência heroica ao imperialismo ianque, e as denúncias contra o ditador são vistas como parte de uma conspiração de “inimigos do povo” para derrubá-lo.

Do mesmo modo, Bolsonaro parece ter construído em torno de si uma comunidade cujos integrantes consideram verdadeiros brasileiros somente aqueles que, como eles, são absolutamente leais não à Pátria, mas ao presidente. Para estes, como para os seguidores de Maduro e para os entusiasmados simpatizantes de autocratas totalitários no passado, “o líder sempre tem razão” - não por acaso, um slogan nazista. Faça o que fizer - inclusive negociar cargos com o que há de pior no Congresso, ignorando solene promessa de campanha -, Bolsonaro, na visão de seus fanáticos seguidores, jamais erra. 

Nesses termos, os códigos morais que orientam a distinção entre o certo e o errado, base da civilização, são deliberadamente subvertidos para se enquadrarem nos desígnios do líder, cujo desejo passa a ser a expressão da lei. Esse colapso moral - em que a mentira, o cinismo e a truculência são virtudes cívicas, enquanto a racionalidade e o respeito a opiniões divergentes são defeitos capitais - é o que une a comunidade nacional bolsonariana, faça chuva ou faça sol.

E nessa comunidade Bolsonaro governa soberano. Ali, ele é a autoridade incontestável que não consegue ser na Presidência da República, cujo exercício é limitado pela Constituição. O fato de que o apoio popular a Bolsonaro caiu para um quarto dos eleitores apenas reforça o sentimento dos bolsonaristas remanescentes de pertencimento a uma minoria virtuosa, uma espécie de “família Bolsonaro” ampliada, que, guiada pelo seu “mito”, enxerga o que a maioria ignorante não consegue ver e enfrenta inimigos cada vez mais numerosos - no Congresso, no Judiciário, na imprensa e dentro do próprio governo. São, como seu líder, totalmente inaptos para a democracia.

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