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Greenwald, o homem que quer fritar Sergio Moro, é uma fera

Para dar uma ideia, aproximada, do mundo em que Glenn Greenwald circula como uma águia, com língua rápida e brilhante de advogado, olho de jornalista e outras habilidades mais complexas, ele funciona frequentemente como aliado de Donald Trump.

Convidado pelos apresentadores ideológicos da Fox, como Tucker Carlson ou Sean Hannity, o jornailista, tão de esquerda quanto possível, dedicou-se em várias entrevistas, antes e depois do relatório Mueller, a desmanchar a tese de uma associação clandestina entre Trump e o governo de Vladimir Putin.

alvez o principal motivo para desconfiar de que alguma coisa obscura aconteceu seja esse, e não as exageradas e surtadas acusações de políticos democratas e jornalistas antitrumpistas.

Espetacular debatedor, capaz de esmagar interlocutores com agressividade de advogado criminal e montanhas de dados, ele pulveriza as acusações de que faz parte do trio de brilhantes “vazadores” que se comportam como agentes de interesses russos. Os outros são Julian Assange e Edward Snowden.

Foi com eles que Greenwald se tornou uma figura global, saudado como nobre defensor da liberdade de expressão e da transparência. Chegou a ganhar um prêmio Pulitzer.

Inebriados com a formidável quantidade de informações sigilosas sobre atividades políticas e militares de sucessivos governos, jornalistas americanos demoraram um pouquinho até perceber que Assange só passava dados que constrangessem os Estados Unidos.

Não aparecia nada sobre Rússia e aliados. Snowden, claro, é até hoje asilado na Rússia, não exatamente o tipo de país onde um agente de inteligência chega de mãos vazias e boca fechada.

Sem contar que foi o WikiLeaks o divulgador dos emails de associados de Hillary Clinton, sem nada muito grave, mas com revelações sobre bastidores que aumentaram o clima de inimizade interna no Partido Democrata. Embora, claro, seja exagero de perdedor atribuir a derrota dela aos tais emails.

Quem passou a informação? O “agente” identificado como Guccifer 2.0,  um taxista romeno que fazia fachada para o trabalho coletivo do ramo cibernético da inteligência militar russa. Greenwald teve acesso a Guccifer, um maravilhoso nome fantasia.

O jornalista americano contra-ataca rapidamente quando é colocado na mesma turma de hackers e outros gênios progressistas que defendem seus vazamentos em nome da liberdade de informação, mas acabam alinhados com os objetivos de Vladimir Putin.

No ano passado, quando um professor de biologia integrativa da Universidade do Texas, Claus Wilke, tuitou que “Greenwald é um agente russo. Se você olhar para as pessoas e posições que ele apoio nos últimos anos, isso fica muito óbvio”, a resposta veio rápida.

“Década de 50: J Edgar Hoover acusa jornalistas e acadêmicos de serem agentes secretos do Kremlin. 2018: acadêmicos assumem o papel acusatório. Esta é uma grave patologia coletiva na vida política dos Estados Unidos que não vai desaparecer tão cedo.”

O professor eliminou o tuíte e Greenwald ainda se passou por vítima das “elites”, dizendo que não podia circular mais nos “salões liberais”.

As atitudes de celebridades como Assange e Greenwald confundem cabecinhas do Terceiro Mundo, onde ainda são considerados grandes aliados da esquerda.

Greenwald é um estrategista que criou para o marido, David Miranda, que conheceu no Rio de Janeiro, onde moram, um nicho próprio de ativista de esquerda com projeção internacional.

Quando foi detido em Londres levando material sigiloso do infindável arquivo de Snowden, Miranda deu escândalo e ditou os passos que o governo brasileiro tinha que tomar. A detenção era inteiramente previsível, considerando-se que o caso já havia explodido.

Na época, Dilma Rousseff teve a excepcional prudência de não fazer o que o brasileiro detido por algumas horas, num procedimento depois considerado legítimo, estava mandando.

Ironicamente, David Miranda, primeiro eleito vereador pelo PSOL, agora é um deputado com lugar na Câmara e na Comissão de Relações Exteriores. Chegou lá como suplente de Jean Wyllis que, famosamente – ou será que coincidentemente – deixou a cadeira e o Brasil, temendo ameaças à vida e integridade.

David Miranda já aparecer até na Time como “político gay e negro” que está enfrentando Jair Bolsonaro. Obviamente, com aura de herói vindo do Jacarezinho para voos mais altos depois de conhecer Greenwald num vôlei de praia em Ipanema, depois de ser engraxate e faxineiro.

O caso de amor trouxe Greenwald para o Brasil e, claro, para a política brasileira. Em 2014, ele criou o site The Intercept, publicado em inglês e português. O dono e financiador é Pierre Omidyar, filho de imigrantes iranianos de alto nível acadêmico nascido em Paris que depois se mudaram para os Estados Unidos. Na terra das oportunidades, Omidyar criou nada menos que o eBay, o site de leilões diretos. Como outros bilionários digitais – 12,9 bi no caso dele -, quer mudar o mundo.

Se alguém quer mudar o mundo, ou pelo menos causar terremotos políticos, Glenn Greenwald é um dos mais perfeitos exemplares do chamado “jornalismo de choque”, um passo além do militante pelo fato de criar acontecimentos ao contrário de apenas cobri-los de modo condizente com as respectivas ideologias políticas.

Entrar no Telegram, o serviço de mensagens altamente criptografadas criado pelos irmãos russos Nikolai e Pavel Durov, não é exatamente descobrir o código secreto da Enigma. Mas exige habilidades supostamente generosas com a fonte do Intercept que passou as mensagens entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol.

Foram assim descritas pelo site: “Produzidas a partir de arquivos enormes e inéditos – incluindo mensagens privadas, gravações em áudio, vídeos, fotos, documentos judiciais e outros itens – enviados por uma fonte anônima, as três reportagens revelam comportamentos antiéticos e transgressões que o Brasil e o mundo têm o direito de conhecer.”

É possível deduzir que Greenwald entrou há um bom tempo na briga e preparou cuidadosamente esta e as próximas etapas dela. Até jornalistas iniciantes sabem que as bombas nunca são lançadas todas de uma vez.

A briga continua. VEJA

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