PF investigará operação bilionária do Master com fundos de pensão de estados e municípios
Por Malu Gaspar e Johanns Eller / O GLOBO
A Polícia Federal (PF), que prendeu ontem o CEO do Master, Daniel Vorcaro, e outros integrantes da cúpula do banco por fraudes na venda de créditos ao BRB, abrirá novas frentes de investigação para apurar as circunstâncias da venda de títulos que não são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a fundos de previdência estaduais e municipais, que rendeu ao menos R$ 1,867 bilhão à companhia.
Os papeis estão no centro da controvérsia sobre a saúde financeira da instituição, assim como os CDBs. Com a liquidação extrajudicial do Master por determinação do Banco Central, o FGC fará o maior resgate de sua história para honrar o dinheiro aplicado no banco, com um teto de R$ 250 mil por pessoa ou empresa previsto em lei. Mas isso não se aplica às chamadas letras financeiras negociadas junto a estados e municípios, que prometiam rendimento bem acima do CDI e foram considerados “arriscados demais” pela Caixa Econômica Federal em 2024.
Os números fazem parte de um levantamento publicado pela equipe da coluna em abril passado a partir dos sistemas eletrônicos do Ministério da Previdência Social.
Metade de toda a arrecadação do Master com essas letras – R$ 970 milhões – foi arrecadado com a venda de títulos para o Rioprevidência, como informou O GLOBO.
Além do Rio de Janeiro, também fizeram aplicações nos fundos do Master os governo do Amapá e do Amazonas e a prefeitura de Maceió (AL) – todos controlados politicamente por integrantes do Centrão.
O fundo estadual dos servidores do estado do Rio é conhecido nos bastidores fluminenses como feudo político do União Brasil. Além dos fundos de pensão, também houve outros R$ 200 milhões vendidos à Cedae, companhia de saneamento do Rio que também está sob a influência do partido.
A legenda é comandada por Antonio Rueda. Apesar de ser pernambucano, é o dirigente partidário com mais influência sobre a gestão do governador Cláudio Castro (PL) e planeja se candidatar a deputado federal pelo estado em 2026 tendo como base Belford Roxo (RJ), cidade administrada pela sigla. O presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar, também é filiado ao União.
Rueda também é muito próximo do dono do Master, Daniel Vorcaro, e atuou nos bastidores para concretizar o anúncio da compra pelo BRB, formalizado em março passado.
No fim do ano passado, o Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) apontou indícios de irregularidade nos investimentos e fez um pedido cautelar ao Rioprevidência para a suspensão de novas aplicações no Master “e outras instituições financeiras que não atendam aos princípios da segurança, proteção e prudência financeira”.
O segundo estado que mais comprou papéis do banco de Daniel Vorcaro foi o Amapá – estado em que, apesar de o governador ser do Solidariedade, o fundo de pensão também é área de influência do União Brasil, que tem como maior liderança no estado o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre.
No Amazonas, outro estado governado pelo União, o fundo de previdência dos servidores também comprou R$ 50 milhões em letras financeiras do Master.
Ao todo, só os fundos ligados a Rueda aplicaram quase R$ 1,5 bilhão no banco de Vorcaro.
Outro exemplo é o do Instituto de Previdência dos Servidores do Município de Maceió (Iprev), que investiu R$ 117,9 milhões em letras financeiras do Master. O União apoiou a candidatura à reeleição do atual prefeito, João Henrique Caldas (PL), o JHC, em 2024.
Histórico da corretora
Na maior parte dos casos, o vendedor dos papéis é o próprio Master. Mas, em parte dos negócios realizados com o governo do Rio, a corretora foi a Planner, que vendeu R$ 510 milhões em letras financeiras ao Rioprevidência.
A Planner já foi alvo de diversas operações da Polícia Federal — incluindo a Greenfield, que apurou fraudes e desvios em fundos de pensão. Em alguns desses processos, o sócio da Planner acusado de fraudes foi Maurício Quadrado, que depois da corretora tornou-se sócio do Master. Em setembro passado, ele anunciou que estava deixando o banco, mas até agora isso não ocorreu.
Em 2018, Quadrado foi citado na delação premiada de um ex-superintendente da Caixa, Roberto Madoglio, que disse ter recebido dele uma propina de R$ 8 milhões para destinar recursos do FI FGTS para empresas do grupo Odebrecht.
No acordo com o Ministério Público Federal (MPF), Madoglio se comprometeu a devolver à União R$ 39,2 milhões que arrecadou em subornos e que estavam em contas na Suíça e no Uruguai.
Esse foi um dos fatores que levou os gerentes da Caixa a reprovarem a operação de compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do Master que estavam em análise pela subsidiária de investimentos. Eles foram destituídos de seus cargos após assinarem um parecer técnico classificando o negócio como “arriscado”. Com a repercussão do caso, revelado pela coluna, a operação acabou não avançando.
Boia de salvação
A negociação com a Caixa fez parte de uma força-tarefa orquestrada pelos gestores do Master a partir do final de 2023, quando o BC emitiu normativas que aumentavam a exigência de capital de outras fontes que não apenas precatórios e CDBs para que instituições financeiras continuassem operando. A nova regra, feita sob medida para o Master, concedeu um prazo de dois anos para o banco se adaptar.
Nesse período, os executivos do Master acionaram todos os seus contatos políticos e institucionais para vender as letras financeiras a fundos de pensão estaduais e municipais.
Os fundos de previdência ligados à administração federal foram proibidos de comprar esse tipo de ativo depois das fraudes constatadas na operação Greenfield, que deixou rombos bilionários na Petros (Petrobras), o Postalis (Correios) e a Funcef (Caixa). Boa parte do prejuízo está sendo paga até hoje por meio de descontos mensais nas aposentadorias dos beneficiários.
No caso dos fundos de previdência estaduais e municipais, sem a cobertura do FGC e diante da liquidação do Master, os desdobramentos são imprevisíveis.

