Haddad, como Lula, dificulta a redução dos juros
EDITORIAL DA FOLHA DE SP
Fernando Haddad foi a voz solitária da racionalidade econômica no governo e no PT até a primeira metade do mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Ao longo deste ano, contudo, vai deixando de lado os reparos à gestão das contas públicas e compartilhando críticas oportunistas ao Banco Central.
Na terça-feira (4), disse que, se fosse presidente do BC, votaria pela redução dos juros. Nesta quarta (5), para surpresa de ninguém, a instituição manteve sua taxa, a Selic, em 15% anuais.
No atual patamar, os juros são insustentáveis, diz o ministro da Fazenda —é fato. No entanto ele não aborda as condições para que eles possam começar a cair, como afirma desejar, para já.
Na hipótese menos ruim, Haddad apenas prepara discurso para a campanha eleitoral de 2026, ameaçando a credibilidade do BC e dificultando o corte da taxa. Se não é o caso, mostra compreensão precária dos problemas macroeconômicos do país.
A economia ainda está inflacionada. A variação do IPCA deve terminar o ano perto de 4,5%, longe da meta de 3%. A expectativa para o fim de 2027, mesmo com a Selic nas alturas, é de 3,8%. Continua difícil conter a alta dos preços de serviços, pressionados pelo mercado de trabalho aquecido.
O déficit com o exterior sobe, em boa parte devido à queda do saldo comercial, pois as importações crescem, dada a escassez de oferta, sintoma de atividade econômica acima do potencial.
O IPCA melhor do que o esperado deste ano deve-se a safra, clima melhor, preços mundiais bem comportados e queda do dólar por efeito de medidas de Donald Trump. No mais, a carestia e a desvalorização do real são contidas pelo arrocho monetário.
As taxas de juros seriam menores caso houvesse contribuição da política de gastos, que pressiona a demanda. No ano passado, o afrouxamento da meta fiscal e o pacote frustrante de ajuste deram impulso a um movimento de alta de dólar, inflação e juros.
Haddad tergiversa sobre os erros, preferindo atribuir responsabilidades a administrações passadas ou ao Congresso Nacional. De fato, o governo herdou gastos contratados e isenções fiscais —muitas delas, diga-se, de outras administrações petistas. Porém o que fez foi agravar o quadro.
Sob Lula, o Tesouro terá déficit primário (sem contar juros) em todos os anos —neste 2025, o rombo esperado ronda os R$ 70 bilhões, dos quais a maior parte não será considerada para o cumprimento da meta oficial.
A despesa federal já aumentou 14%, em termos reais, cerca de R$ 290 bilhões ao ano, e no momento avança no Congresso um reajuste salarial para os servidores do Judiciário mais caro do mundo. A dívida pública subiu de 71,7% para 78,1% do PIB.
O governo criou as condições que levaram os juros ao insustentável. Baixar a Selic agora ou sem mais causaria danos no dique que contém deterioração macroeconômica ainda maior, se não for o gatilho de tumulto imediato.

