MAESTRO AUSENTE
Por Notas & Informações / O ESTADÃO
Há uma percepção, cada vez mais consolidada, de que o governo federal está desarticulado. São muitos os elementos que expõem a ausência de coordenação do Executivo, especialmente em sua relação com o Legislativo. Há quem atribua a responsabilidade dessa situação ao ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha. Outros apontam para o chefe da Casa Civil, Rui Costa, ou mesmo para os líderes do governo no Congresso. São muitas as narrativas possíveis.
Questionado a respeito da dificuldade do governo na formação de uma base aliada minimamente consistente, o deputado federal Marcos Pereira, vice-presidente da Câmara e presidente nacional do Republicanos, fez uma observação pertinente, em entrevista ao jornal Valor. Comparando o governo a uma orquestra, reconheceu que “cada um toca um instrumento, mas tem um maestro” e, “se o maestro reger errado, a orquestra desafina”. Por isso, disse não ter dúvida de que o responsável pela desafinação do governo “é o presidente”.
São muitos os contrastes entre o terceiro mandato de Lula e seu primeiro, 20 anos atrás, e um deles é certamente a disponibilidade do presidente para a negociação com parlamentares. Quando foi eleito pela primeira vez, Lula recebia deputados e senadores com frequência em seu gabinete, o que, em Brasília, costuma acalmar ânimos e construir lealdades. Hoje, como mostrou o Estadão recentemente, o acesso a Lula ficou bem mais restrito, e avolumam-se as queixas de parlamentares que se sentem desprestigiados pelos ministros encarregados de recebê-los.
A ideia por trás dessa estratégia é proteger Lula do apetite do Centrão. Faz sentido, mas o problema é que as condições de governabilidade mudaram muito de 20 anos para cá. No primeiro mandato, Lula ainda tinha instrumentos poderosos para arregimentar apoio no Congresso; hoje, com o avanço parlamentar sobre o Orçamento, os trunfos do Executivo minguaram.
Ademais, não há como comparar o time de articulação política de Lula em 2003, cheio de experientes operadores que tinham interlocução franca com o presidente e excelente trânsito no Congresso, com o atual, composto por inexpressivos lugares-tenentes nos quais os parlamentares não reconhecem Lula.
Nada disso condiz com a mitologia criada em torno de Lula, reconhecido até por seus adversários como habilidoso negociador. E, em se tratando de seu terceiro mandato, esperava-se que, graças a essa experiência, Lula tivesse ainda menos dificuldade na articulação política.
Mas Lula não tem ajudado. Perdido em devaneios ególatras sobre sua redenção depois da prisão por corrupção e depois do impeachment de sua criatura, Dilma Rousseff, por incompetência e má gestão, Lula parece muito mais interessado em reescrever o passado do que em lidar com o espinhoso presente e em construir o futuro num país ainda muito dividido.
Lula gasta energia em interpretar o estadista que imagina ser e em apregoar uma agenda econômica anacrônica que mistura ranço estatista com prodigalidade populista. Enquanto o presidente se deixa encantar pelo som da própria voz, as forças políticas se organizam no Congresso praticamente sem sua participação. Isso explica a inoperância de seu time político, incapaz, por exemplo, de frear a instalação de CPIs contrárias a seus interesses.
Não é, definitivamente, um cenário que inspire confiança em relação às votações importantes que estão por vir, sobretudo a do novo regime fiscal – que não tem consenso nem entre os petistas – e a da prometida reforma tributária.
São assuntos difíceis, politicamente complicados, que exigem dedicação máxima do presidente. Não são reformas que se aprovam por inércia, por simples transcurso do tempo. Exigem foco, trabalho e muita negociação. No entanto, Lula tem atuado como se esses assuntos não fossem com ele.
Depois de quatro anos do pesadelo de Jair Bolsonaro, um presidente totalmente alheio ao Congresso, esperava-se que, com Lula, a coisa fosse diferente. Ainda há tempo de ser, mas os primeiros meses do governo, marcados por desorientação e fragilidade, desautorizam otimismo.

